Guerra EUA-Israel contra Irã pode desencadear corrida nuclear global, alertam especialistas
Guerra pode desencadear corrida nuclear global, alertam especialistas

Guerra EUA-Israel contra Irã pode desencadear corrida nuclear global, alertam especialistas

Desde que Estados Unidos e Israel iniciaram seus ataques contra o Irã no final de fevereiro, uma das principais justificativas tem sido impedir que Teerã desenvolva armas nucleares. No entanto, mais de um mês após o início do conflito, cresce o temor entre especialistas de que uma das consequências possa ser exatamente o oposto: desencadear uma perigosa corrida nuclear não apenas no Oriente Médio, mas em diversas partes do mundo.

Diplomacia em risco e busca por segurança nuclear

Segundo analistas em proliferação nuclear ouvidos pela BBC News Brasil, o cenário atual pode levar não apenas o regime iraniano, mas também outros governos, a concluírem que a melhor garantia contra agressões não é a diplomacia ou armas convencionais, mas sim possuir uma bomba atômica como salvaguarda. A guerra tem gerado incertezas sobre a capacidade dos Estados Unidos de proteger seus aliados, especialmente após países como Emirados Árabes e Arábia Saudita sofrerem ataques de retaliação iranianos.

"É tragicamente irônico que uma das justificativas para a guerra tenha sido impedir que o Irã obtivesse a bomba", afirma o cientista político Reid Pauly, professor de Segurança e Política Nuclear da Universidade Brown, nos Estados Unidos. "Um governo iraniano que sobreviva a esta guerra certamente avaliará como se proteger melhor de futuros ataques. E armas nucleares podem ser uma das conclusões."

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Risco de "cascata de proliferação" na região

John Erath, diretor sênior do Centro para o Controle de Armas e Não Proliferação, alerta para o que descreve como "a continuação de uma série de decisões equivocadas". Ele lembra que negociações sobre o programa nuclear iraniano estavam em curso quando o país foi atacado no ano passado, e novamente neste ano os ataques começaram durante diálogos.

"Se essa cadeia de decisões equivocadas persistir, é possível que o Irã conclua que estará mais seguro em posse de armas nucleares e decida fabricá-las", afirma Erath. "E a Arábia Saudita já afirmou que, se o Irã possuir armas nucleares, seguirá o mesmo caminho. Alguns outros países da região talvez também façam o mesmo."

O príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, líder de fato da Arábia Saudita, já declarou publicamente que, caso o Irã desenvolva uma bomba atômica, seu país seguirá o mesmo caminho.

Instalações nucleares e conhecimento científico preservado

O programa nuclear iraniano é uma preocupação antiga de Estados Unidos, Israel e aliados. O Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), mas sempre negou buscar armas nucleares, afirmando que seu programa de enriquecimento de urânio tinha fins pacíficos.

"As instalações envolvidas no programa nuclear foram certamente danificadas", observa Erath. "Mas o conhecimento científico para produzir uma arma nuclear ainda existe. Com o tempo, o Irã poderia reconstruir suas instalações e colocar esse conhecimento em prática."

Acredita-se que o Irã ainda tenha urânio altamente enriquecido soterrado sob escombros dos bombardeios, gerando preocupação sobre o que pode acontecer com esse material em caso de instabilidade interna.

Fragilidade do regime de não proliferação global

Atualmente, nove países são amplamente reconhecidos como possuidores de armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte. No entanto, pesquisas de opinião em diversos países mostram crescente apoio ao desenvolvimento de capacidade nuclear doméstica.

Alicia Sanders-Zakre, diretora de políticas da Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (ICAN), destaca: "As ações dos nove Estados detentores de armas nucleares, que têm se empenhado em modernizar, aumentar o tamanho de seus arsenais ou desenvolver novos tipos de armas nucleares, enfraqueceram profundamente o regime de não proliferação."

Erath identifica três fatores que impulsionam o mundo na direção da proliferação:

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  1. Os esforços da China, que aproximadamente dobrou seu arsenal nuclear na última década
  2. A guerra da Rússia contra a Ucrânia, onde ameaças nucleares se tornaram instrumento político
  3. A "percepção de imprevisibilidade dos Estados Unidos", gerando incertezas para adversários e aliados

Exemplos históricos e argumentos pró-dissuasão

Um dos argumentos usados em defesa de desenvolver armas nucleares é que, se o Irã já tivesse uma bomba como fator de dissuasão, talvez não tivesse sido atacado. Analistas frequentemente citam exemplos como:

  • A Ucrânia, que na década de 1990 abriu mão do terceiro maior arsenal nuclear do mundo e, três décadas depois, foi invadida pela Rússia
  • A Líbia, que abdicou de suas armas nucleares e acabou sofrendo uma mudança de regime
  • A Coreia do Norte, que se retirou do TNP em 2003, hoje possui armas nucleares e permanece livre de agressão militar

Obstáculos e esperança contra a proliferação

Apesar dos temores, analistas ressaltam que uma nova onda de proliferação não é inevitável. "Arsenais nucleares são eficazes para dissuasão, mas o caminho para adquirir armas nucleares é repleto de perigos", ressalta Pauly. "Portanto, pode ser racional para um país decidir confiar apenas em armas convencionais para sua segurança."

Além das dificuldades técnicas, há custos altos envolvidos, incluindo sanções e isolamento internacional. "Armas nucleares são tremendamente caras, muito difíceis de construir e manter, além de serem perigosas", afirma Erath. "Ninguém as constrói por capricho, é preciso que haja uma ameaça existencial."

Sanders-Zakre considera fundamental que a comunidade internacional se mantenha firme: "Enquanto alguns países tiverem permissão para possuir armas nucleares, outros também vão considerar fazer o mesmo. É por isso que precisamos trabalhar pela abolição total."