Mercado editorial brasileiro perde 7 milhões de leitores em 4 anos, mas Paraná mostra sinais de recuperação
Brasil perde 7 milhões de leitores; Paraná tem crescimento de 300% em plataforma

Brasil perde quase 7 milhões de leitores em quatro anos, revela pesquisa nacional

O mercado editorial brasileiro enfrenta um dos seus maiores desafios históricos: sobreviver à ascensão das redes sociais e à era da impaciência, moldada pelo consumo de informações cada vez mais compactas e instantâneas. Em um período de apenas quatro anos, o país registrou uma perda alarmante de quase 7 milhões de leitores, com recuo observado em todas as faixas etárias, classes sociais e níveis de escolaridade.

Os dados preocupantes são da 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, que aponta uma retração multifatorial. Entre os principais elementos desse declínio estão a renda comprimida da população, que reduz drasticamente os gastos com cultura, e a concorrência avassaladora com conteúdos instantâneos como vídeos curtos, feeds de redes sociais e notificações constantes, que treinam o cérebro humano para estímulos rápidos e superficiais.

Paradoxo brasileiro: queda nacional versus crescimento paranaense

Enquanto o cenário nacional apresenta números preocupantes, o estado do Paraná emerge como um exemplo positivo e inspirador. A Biblioteca Pública do Paraná encerrou o ano de 2024 com mais de 215 mil cadastros ativos e aproximadamente 61 mil empréstimos realizados no período, além de registrar um fluxo diário próximo de mil pessoas em suas dependências.

No ambiente escolar, os bons números se repetem com ainda mais força. Em 2025, estudantes da rede estadual de ensino do Paraná ultrapassaram a marca impressionante de 1,1 milhão de livros lidos através da plataforma digital Leia Paraná, representando um crescimento extraordinário de 300% em comparação com o ano anterior.

Um levantamento detalhado da Secretaria de Estado da Educação do Paraná revela números ainda mais expressivos: foram registrados 6,1 milhões de empréstimos digitais e acumuladas 1 milhão de horas de leitura através da plataforma. Esses dados contrastam fortemente com a realidade nacional, onde apenas 18% dos brasileiros enxergam a biblioteca como espaço de empréstimo de livros, segundo a mesma pesquisa Retratos da Leitura.

Especialistas analisam o fenômeno e apontam soluções

Para a pedagoga Vivian Farias, professora do curso de Pedagogia do UniCuritiba, essa discussão se impõe com urgência para redes de ensino, editoras, bibliotecas e famílias brasileiras. "O grande desafio contemporâneo é transformar o ecossistema digital em um aliado da leitura", afirma a especialista. "Para conseguir essa transformação, precisamos de menos culpabilização das telas e mais pontes entre formatos digitais e físicos, além de mediação docente qualificada e acesso facilitado aos livros, seja por meio de empréstimo, compra ou plataformas online".

Na avaliação da psicóloga Eliane Mion, também professora do UniCuritiba, a leitura continuada treina habilidades cognitivas que estão sendo sufocadas pelo excesso de estímulos digitais. "Incentivar a leitura ativa diversas regiões cerebrais de forma integrada, estimulando a atenção sustentada, a memória de longo prazo, o desenvolvimento da linguagem e contribuindo significativamente para o pensamento abstrato e a resolução de problemas complexos", explica a profissional.

A psicóloga destaca ainda que "a leitura deve ser especialmente incentivada na infância, pois, além de favorecer o processo de alfabetização, ajuda no desenvolvimento da consciência fonológica e na organização do pensamento lógico". Para os adultos, Eliane Mion ressalta que "além dos benefícios cognitivos de expandir o vocabulário e aprimorar a capacidade de concentração, raciocínio e interpretação, a leitura pode ser utilizada como estratégia de coping, ou seja, uma forma eficaz de reduzir a ansiedade e aliviar o estresse do cotidiano".

Dicas práticas para retomar o hábito da leitura na era digital

Para transformar o "scroll infinito" das telas em porta de entrada para o universo dos livros, as professoras do UniCuritiba – instituição que faz parte do ecossistema da Ânima Educação – elaboraram recomendações práticas baseadas em evidências científicas e pedagógicas:

  1. Pequenas metas diárias: estabelecer períodos de 10 a 15 minutos de leitura diária ajuda a consolidar o hábito de forma gradual e sustentável. Apps de e-book e audiolivro são ótimas opções para "encaixar" a leitura durante deslocamentos e momentos de espera.
  2. Do vídeo ao livro: utilizar conteúdos curtos como gancho inicial, como teasers de capítulos ou resenhas em vídeo. Ler pequenos trechos, frases impactantes ou resumos provocativos ajuda a despertar a curiosidade natural, criando uma ponte para a leitura profunda do texto completo.
  3. Comunidades e desafios literários: participar de clubes de leitura com metas definidas (como um livro por mês) e integrar-se a grupos de discussão sobre resenhas de livros cria um senso de comunidade e responsabilidade compartilhada.
  4. Ambiente protegido de distrações: criar um "tempo-livro" específico, deixando o celular no modo silencioso e afastado, aumenta significativamente a atenção dedicada à leitura e evita interrupções constantes.
  5. Curadoria por interesse pessoal: escolher livros baseados em temas e gêneros favoritos aumenta naturalmente o engajamento e melhora substancialmente a taxa de conclusão das leituras iniciadas.

"Devemos ler o que genuinamente gostamos até aprender a gostar do próprio ato de ler", ensina a psicóloga Eliane Mion, sintetizando uma abordagem pragmática para reconquistar os leitores perdidos.

Leitura como ato de resistência e desenvolvimento humano

De acordo com a pedagoga Vivian Farias, que leciona nas disciplinas de Língua Portuguesa e Literatura Infanto-Juvenil, "ler é um ato de presença plena e de resistência cultural em tempos de distração generalizada". Em meio à avalanche de informações rápidas e superficiais que caracterizam a era digital, "o livro oferece o tempo precioso da escuta atenta, da pausa reflexiva e da contemplação profunda".

Estimular a leitura, na visão das especialistas, é essencialmente "ensinar o cérebro humano a desacelerar voluntariamente, uma habilidade crucial para manter o equilíbrio emocional e desenvolver o pensamento crítico na contemporaneidade".

Para finalizar, a professora Eliane Mion lembra que "a leitura vai além de um simples passatempo ou obrigação escolar - é um instrumento poderoso de desenvolvimento humano integral". A psicóloga conclui: "Ela nos ajuda a pensar com mais clareza, sentir com mais profundidade, imaginar com mais liberdade, reforçar vínculos sociais significativos e cuidar ativamente de nossa saúde mental em um mundo cada vez mais acelerado".

O paradoxo brasileiro - país que lê menos, mas que demonstra, através de experiências como a do Paraná, que quando a escola e as políticas públicas conectam o livro à cultura digital de forma inteligente, a leitura pode não apenas voltar a crescer, mas florescer em novos formatos e espaços - permanece como um desafio e uma oportunidade para toda a sociedade.