O que parecia um sonho quase inalcançável está se transformando em realidade para Guilherme da Silva Mazini, de 24 anos. Morador de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, ele enfrenta uma das rotinas mais desafiadoras possíveis: há três anos trabalha como coletor de lixo enquanto cursa medicina, uma das graduações mais exigentes do país.
Do lixo ao consultório: o sonho da psiquiatria
Recentemente, Guilherme ganhou destaque nas redes sociais ao realizar seu trabalho vestido de Papai Noel, uma forma criativa e leve de celebrar o fim de mais um ano de batalhas. Mas por trás da fantasia há um objetivo sério e bem definido. Em entrevista, o jovem revelou que, após se formar, pretende se especializar em psiquiatria.
"A psiquiatria é uma área que me enche os olhos. Cada vez mais vemos a importância da saúde mental. Meu desejo é ajudar as muitas pessoas afetadas por esses problemas", afirmou Guilherme, destacando sua motivação principal.
O interesse pela saúde mental não surgiu por acaso. O estudante relata que teve vivências pessoais profundas com casos de dependência química em sua própria família, especialmente o alcoolismo do pai. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa doença crônica é responsável por cerca de 3 milhões de mortes anuais no mundo.
"Depois de vivenciar experiências relacionadas a drogas lícitas e ilícitas, comecei a enxergar o impacto devastador na vida das pessoas. Gostaria de resgatá-las. Acredito que a vida é muito preciosa para ser perdida dessa forma", compartilhou o futuro médico, explicando que a convivência familiar despertou primeiro o desejo de ajudar em casa, que depois se expandiu para um propósito maior.
Rotina de superação: 6x1 na coleta e aula integral
Conciliar as duas atividades exige um esforço sobre-humano. Guilherme cursa medicina por meio do Financiamento Estudantil (Fies), já que, conforme levantamento de 2024, as mensalidades do curso podem chegar a quase R$ 16 mil no Brasil. Seu dia a dia é uma maratona cronometrada.
As aulas ocorrem das 7h30 às 17h10. Imediatamente após, ele precisa "voar" para o trabalho na limpeza urbana, que começa às 17h, de segunda a sábado, em um regime de escala 6x1. Para encaixar os dois compromissos, ele sai cerca de 10 minutos mais cedo da faculdade e chega com o mesmo atraso ao serviço.
"Está sendo muito difícil conciliar, são duas coisas muito exigentes. Já busquei flexibilidade com empresas, mas preciso da renda", lamentou o estudante, revelando que a falta de apoio para ajustar horários é um dos maiores obstáculos.
Apesar da carga intensa, Guilherme conseguiu uma vitória significativa: concluiu o semestre sem reprovações ou dependências. "Foi muito desafiador. É uma jornada que deixa cicatrizes, ansiedade e alguns quilos a mais", confessou. Ele admitiu que muitas vezes perdeu aulas importantes, o que dificultou a preparação para as provas, tornando necessário um esforço redobrado para revisar o conteúdo.
Futuro e resiliência
Atualmente, o jovem está em recesso pelo fim do ano letivo, mas já se prepara para iniciar o terceiro semestre de medicina, mantendo inalterada sua rotina como coletor de lixo. A fantasia de Papai Noel, segundo ele, foi um "escape para renovar as energias" diante de tanta pressão.
Determinado, Guilherme Mazini segue seu caminho sabendo que muitos desafios ainda estão por vir. Sua história não é apenas sobre conciliar dois trabalhos extenuantes, mas sobre transformar experiências pessoais difíceis em um propósito de vida dedicado a cuidar da saúde mental dos outros. "Vou continuar assim", finalizou, mostrando a resiliência que já o tornou um exemplo de superação em Presidente Prudente e além.