Conflito interno no PSOL expõe divisão sobre aliança com o PT
O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) enfrenta uma das maiores crises internas de sua história, com uma polarização acirrada sobre a possibilidade de entrar em uma federação partidária com o Partido dos Trabalhadores (PT). A discussão, que vem ganhando intensidade nas últimas semanas, colocou em lados opostos algumas das principais lideranças da legenda, revelando profundas divergências estratégicas e programáticas.
Braga lança críticas públicas a Boulos
O deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) utilizou suas redes sociais para se manifestar contra o posicionamento público do ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, que defende a entrada do PSOL na Federação Brasil da Esperança, bloco político que já reúne PT, PV e PCdoB. Em vídeo publicado nesta semana, Braga foi enfático em sua oposição.
"Está errado! Federação é um bloco político de, no mínimo, quatro anos de duração", declarou o parlamentar. "Isso dilui o partido programaticamente, além disso, engessa, tira a independência política para fazer as lutas e determina aquilo que vai ser feito eleitoralmente", completou, argumentando que a medida não fortaleceria a esquerda nem ajudaria no enfrentamento à extrema direita.
Exemplo do Rio ilustra preocupações
Para fundamentar sua posição, Braga citou a situação política do Rio de Janeiro, seu domicílio eleitoral. Ele questionou se o PSOL estaria disposto a abrir mão de sua autonomia em decisões eleitorais importantes.
"O PSOL ficar obrigado a apoiar a candidatura de Eduardo Paes, junto com a família Reis, no primeiro turno, sem ter o direito de lançar uma candidatura própria? A gente não pode nem pensar nessa hipótese", argumentou. "Os partidos que já compõem essa federação apoiam Eduardo Paes para o governo do estado. Se o PSOL entrar na federação, fica impedido de lançar candidatura própria".
O deputado ressaltou que o exemplo carioca é apenas um entre muitos que poderiam ser citados em diversos estados brasileiros, onde as alianças locais do PT poderiam forçar o PSOL a abrir mão de suas próprias estratégias eleitorais.
Correntes em confronto dentro do partido
A defesa da federação com o PT concentra-se atualmente na corrente Revolução Solidária, que reúne nomes de peso como:
- Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência
- Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas
- Erika Hilton, deputada federal
Do outro lado da disputa, além de Glauber Braga, posicionam-se:
- Paula Coradi, presidente nacional do PSOL
- Sâmia Bomfim, deputada federal por São Paulo
- A maioria das demais correntes internas do partido
Estes defendem a manutenção apenas da federação atual com a Rede Sustentabilidade, arranjo considerado suficiente para superar a cláusula de barreira eleitoral sem comprometer a autonomia programática do PSOL.
Decisão marcada para este sábado
O impasse será resolvido no próximo sábado, 7 de março, durante reunião do diretório nacional do PSOL. Embora Boulos, Hilton e Guajajara acreditem na possibilidade de convencer as demais correntes, os opositores à federação afirmam que os defensores da proposta representam uma minoria dentro do partido e deverão ser derrotados na votação.
A polarização reflete dilemas históricos da esquerda brasileira sobre a relação entre autonomia partidária e unidade de ação, com o PSOL agora enfrentando o desafio de definir seu posicionamento em um cenário político complexo, onde alianças amplas convivem com a necessidade de manter identidade programática diferenciada.



