PL e PSD travam intensa disputa por espaço nos palanques estaduais
No atual período pré-eleitoral, conciliar os interesses do Partido Liberal (PL) e do Partido Social Democrático (PSD) nos estados brasileiros se assemelha ao desafio de acomodar dois elefantes em uma sala de estar. Com caixa eleitoral e partidário que ultrapassou quase 1 bilhão de reais apenas em 2024, o PL se consolida como uma das maiores forças no Congresso Nacional. Sob a liderança de Valdemar Costa Neto e abrigando Jair Bolsonaro e seu clã político, a legenda reúne noventa deputados federais e quinze senadores, com planos ambiciosos para as eleições gerais deste ano, marcadas para outubro.
Ambições presidenciais e disputas estaduais
Além da pretensão de ampliar significativamente o número de parlamentares, a sigla bolsonarista conta com um presidenciável competitivo: o senador Flávio Bolsonaro, do Rio de Janeiro. Disputando o mesmo espaço político está o PSD de Gilberto Kassab que, na eleição municipal de 2024, foi campeão de prefeituras mesmo dispondo de menos da metade dos recursos financeiros do PL. Agora, o partido se movimenta estrategicamente para crescer também no comando dos estados, criando um cenário de confronto direto.
A pouco mais de seis meses das eleições, os dois partidos travam uma batalha, tanto direta quanto indireta, por filiações, composição de palanques e alianças estratégicas. As colisões mais duras entre essas duas legendas de direita ocorrem especificamente no Paraná, governado por Ratinho Junior (PSD), e em São Paulo, comandado por Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Crise no Paraná e a candidatura de Sergio Moro
Pelo acordo originalmente firmado entre o PSD e o PL em 2024, Ratinho Junior — que está no segundo mandato e não pode se reeleger — buscaria uma vaga de senador e indicaria um sucessor para o Palácio Iguaçu, enquanto o PL teria espaço na chapa e indicaria o outro candidato ao Senado. Contudo, a situação se complicou quando o governador do Paraná passou a ser ventilado como um dos três presidenciáveis testados por Kassab, ao lado dos governadores Ronaldo Caiado, de Goiás, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.
Ao mesmo tempo, consolidou-se a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro para a Presidência da República, o que aumentou consideravelmente a pressão do PL para que Ratinho Junior desistisse da corrida ao Planalto. O objetivo seria garantir um palanque único da direita no estado para o filho de Jair Bolsonaro. Em reunião com o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, Ratinho afirmou que não abriria mão da empreitada presidencial e, segundo aliados próximos, recusou um convite para ser vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Interlocutores de Marinho, no entanto, negam que tal proposta tenha sequer existido.
O resultado foi que o PL dobrou a aposta ao negociar ativamente a filiação do senador Sergio Moro (União Brasil) para disputar o governo do Paraná, desmanchando completamente o acordo anterior de apoiar um indicado de Ratinho Junior. Na quarta-feira, 18 de março, Moro foi recebido pela cúpula do PL em Brasília para conversar sobre sua possível troca de legenda. Poucas horas depois, o presidente do PL confirmou publicamente a filiação do senador, programada para a próxima terça-feira, 24 de março. O ex-juiz de Curitiba lidera todos os cenários de intenção de voto para o Executivo paranaense, e as portas abertas do PL representam uma oportunidade estratégica.
Conflitos em São Paulo e outros estados
Outro campo de choque significativo entre esses partidos se desenrola em São Paulo. O PSD deseja compor a chapa à reeleição de Tarcísio de Freitas, seja mantendo a atual posição de vice-governador, ocupada por Felicio Ramuth, ou até mesmo com Gilberto Kassab, o cacique da sigla. Já o PL chegou a pressionar intensamente para ocupar o posto com o deputado André do Prado, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo. Porém, Tarcísio vem dando sinais claros de que pode manter Ramuth na chapa, inviabilizando os planos do partido bolsonarista.
A falta de consenso em torno desse caso específico respinga diretamente na candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, que precisa urgentemente de um palanque forte e unido no maior colégio eleitoral do país. As desconfianças do PL recaem sobre a postura ambígua de Kassab. "Ele achou que o PL precisava dele, mas o PL não precisa de nada", afirma um aliado próximo de Flávio Bolsonaro, em tom de confronto.
Em menor escala, porém igualmente significativas, há trombadas entre PSD e PL em estados como Santa Catarina. Ali, o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), é pré-candidato contra o atual governador e favorito nas pesquisas, Jorginho Mello (PL). Simultaneamente, o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, se recusa a endossar Rodrigues, seu colega de partido, e manteve o apoio público a Mello. Com isso, o PSD estadual deu início a um processo formal de expulsão de Topázio, evidenciando as fissuras internas.
Disputas no Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro
No Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que migrou recentemente do PSDB para o PSD, pretende eleger seu vice, Gabriel Souza (MDB), que deverá enfrentar o deputado federal Luciano Zucco (PL), atual favorito nas pesquisas locais. Em Minas Gerais, o governador Romeu Zema (Novo), também presidenciável, apoia o vice, Mateus Simões (PSD), que, por sua vez, tem contado com a simpatia — embora não um apoio oficial — do midiático deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Uma ala importante do PL no estado, porém, prefere o senador Cleitinho (Republicanos) para o governo mineiro.
No estado do Rio de Janeiro, o duelo se repete, embora as projeções eleitorais indiquem uma margem amplamente favorável para o prefeito Eduardo Paes (PSD) contra o deputado estadual Douglas Ruas, afilhado político do governador Cláudio Castro, ambos do PL. Essa disputa ilustra a fragmentação da direita em um estado tradicionalmente decisivo.
Estratégias partidárias e projeções futuras
O jogo de empurra entre PL e PSD nos estados revela particularidades importantes da legenda de Kassab. Além de conquistar quase 1.000 prefeituras nas eleições de 2024, o PSD adotou a estratégia de filiar governadores e parlamentares com mandatos obtidos sob outras siglas em 2022. A força regional constitui um dos principais elementos que capacitam a legenda a disputar a hegemonia da direita no Brasil com o PL, mantendo simultaneamente um pé na base governista (o PSD possui três ministros no governo Lula e sua bancada no Congresso vota na maioria das vezes alinhada com o Planalto).
"Na política, não vence só quem é o maior, mas quem pondera melhor, quem decide mais rápido, quem impõe estratégia, e o PSD está conseguindo fazer isso, alinhando candidaturas nos estados, negociando nacionalmente para construir um projeto de poder", avalia Deysi Cioccari, cientista política e professora do Ibmec-SP. O PSD compreendeu que, com Jair Bolsonaro preso e proibido de disputar eleições, criou-se um vazio na direita e que lideranças menos ideológicas têm potencial concreto para preencher esse espaço.
Do outro lado, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, aposta que haverá uma união da direita em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro. Porém, analistas consideram improvável que isso ocorra já no primeiro turno. Mesmo com três presidenciáveis pontuando mal nas pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial, ter candidato próprio é fundamental para o projeto de expansão nacional do PSD. Isso inclui a construção de uma identidade de direita que o distancie da imagem pejorativa de "centrão".
O PL, por sua vez, tem a oferecer o rosto de um presidenciável com alta rejeição, mas também com base eleitoral sólida, para estampar os santinhos dos candidatos regionais. Será cada vez mais difícil acomodar esses dois elefantes políticos na mesma sala sem quebrar as frágeis prateleiras de cristais da aliança direitista. As eleições de 2026 prometem redefinir o equilíbrio de poder dentro do espectro conservador brasileiro.



