Lula intensifica negociações com partidos de centro em busca de apoio eleitoral
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está flertando intensamente com partidos do Centrão e com o MDB, oferecendo até a vaga de vice-presidente em sua chapa para ampliar o apoio à sua candidatura à reeleição em outubro. Esta movimentação estratégica, que visa esvaziar a oposição, está causando significativo desconforto entre aliados históricos como Geraldo Alckmin e o PSB, além de gerar divisões internas no próprio MDB, revivendo um histórico complexo de alianças e rompimentos políticos.
Histórico de aproximações e rompimentos com o MDB
Em maio de 2006, durante sua primeira campanha à reeleição presidencial, Lula já havia se encontrado com o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, cacique do MDB, e feito um aceno semelhante ao oferecer a vaga de vice em sua chapa. Naquela ocasião, por problemas internos em diretórios estaduais, a sigla não participou do pleito ao lado do PT, embora tenha mostrado força ao eleger quase noventa deputados federais.
Posteriormente, a aliança PT-MDB se concretizou e foi vitoriosa nas eleições de 2010 e 2014, quando o deputado Michel Temer deixou o Legislativo para ser vice de Dilma Rousseff. Este casamento político terminou de forma ríspida em 2016, quando Temer assumiu a presidência após o impeachment de Dilma, sob acusações de ter arquitetado um golpe contra a petista.
Desconforto entre aliados e incertezas políticas
A possibilidade de Lula substituir Geraldo Alckmin na chapa presidencial incomoda profundamente não só o próprio vice, que resiste a abraçar outras tarefas como candidatura ao governo de São Paulo, mas principalmente o PSB, hoje o maior partido aliado formalmente ao projeto eleitoral de Lula. O presidente da legenda, João Campos, prefeito de Recife, reafirmou ao presidente o desejo do PSB de manter a vice-presidência como prioridade partidária.
Alckmin, que não se manifesta publicamente, já confidenciou a aliados que pode até deixar a política se for escanteado no projeto presidencial de Lula. Recentemente, o petista sinalizou que gostaria de ver o aliado disputando o governo paulista, posição que Alckmin claramente não deseja, assim como Fernando Haddad, ministro da Fazenda e outra alternativa para enfrentar Tarcísio de Freitas em São Paulo.
Estratégia de expansão e resistências internas
O namoro com o MDB faz parte de uma estratégia ambiciosa de Lula para atrair o máximo possível do centro político e esvaziar as candidaturas de oposição. Nos últimos dias, o presidente surpreendeu ao receber em seu gabinete o senador Ciro Nogueira, dirigente nacional do PP e ex-ministro de Jair Bolsonaro, acompanhado do presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos.
No entanto, a movimentação de Lula não cria incômodos apenas entre seus companheiros da última jornada eleitoral. Dentro do MDB, lideranças importantes reprovam o flerte governista por verem nele uma tentativa de cooptação da legenda. Há resistência significativa à aliança com o petista por parte de caciques como Michel Temer, o prefeito de São Paulo Ricardo Nunes e o presidente nacional da sigla, deputado Baleia Rossi.
Divisões e perspectivas futuras
O petista conta com aliados de peso que já se movimentam para levar a barca emedebista para o porto lulista, como os ministros Renan Filho (Transportes) e Simone Tebet (Planejamento), ambos cotados para serem companheiros de chapa de Lula. A estimativa é que lulistas e não lulistas controlem quase meio a meio os 27 diretórios estaduais da legenda.
A estratégia do petista também aprofunda incertezas no Centrão, antes empenhado em construir a candidatura presidencial de Tarcísio. Parte do grupo ainda encara com dificuldade a chance de embarcar na candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que cada vez mais se consolida como principal opositor de Lula na corrida presidencial.
Desafios históricos e pragmatismo político
Lula sempre teve dificuldades para construir palanques mais amplos, especialmente em direção ao centro. Mesmo em 2006, quando buscou o MDB de Quércia, o petista teve que se contentar em ir para a disputa apenas com o PCdoB e o PRB do vice José Alencar. Na última eleição, construiu seu maior palanque, atraindo nove legendas, mas a maior delas era o PSB, um partido médio do Congresso.
Para a eleição deste ano, o petista tenta unificar de forma inédita a esquerda ao atrair também o PDT, única grande legenda do campo que não abraçou sua candidatura em 2022. Ao centro e à direita, no entanto, persiste a velha dificuldade, que Lula se esforça para superar através de negociações pragmáticas que priorizam resultados eleitorais sobre lealdades políticas históricas.



