Lula defende uso de moedas locais no comércio entre países do Brics
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou de uma entrevista à emissora indiana Índia Today nesta sexta-feira (20), onde fez declarações significativas sobre a economia internacional e a política externa brasileira. Durante a conversa, conduzida em inglês com apoio de tradutores, Lula respondeu às perguntas em português e abordou temas como o papel do dólar nas transações comerciais e a situação na Venezuela.
Crítica ao domínio do dólar e defesa das moedas nacionais
Lula afirmou que o dólar não precisa ser a moeda utilizada pelos países do Brics em suas trocas comerciais, defendendo o uso de moedas locais. O bloco econômico reúne Brasil, Índia, China, Rússia e outros sete nações. "Eu respeito muito as decisões que são tomadas pelos países. Eu defendo isso, não é necessário que o comércio entre Brasil e Índia seja feito em dólar. O que eu defendo é que usemos as nossas próprias moedas", declarou o presidente.
Embora reconheça as razões pelas quais os Estados Unidos defendem o uso do dólar em transações internacionais, Lula sugeriu que os países envolvidos reflitam sobre a necessidade dessa prática. "Não é algo que se pode ser feito do dia para a noite, mas é algo que temos que pensar. Nós precisamos do dólar, ou podemos fazer negócios nas nossas próprias moedas?", questionou, enfatizando a importância de inovar e adaptar-se às necessidades do século XXI.
Papel do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics
Nesse contexto, Lula destacou o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) do Brics, argumentando que a instituição precisa funcionar de maneira distinta de outras organizações internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. "Não precisamos continuar copiando tudo o que aconteceu no século XX. Podemos inovar por causa do século XXI, das necessidades da sociedade civil e dos avanços da sociedade. O Brics é essa esperança", ponderou o petista, reforçando a visão de que o bloco representa uma alternativa para a governança econômica global.
Posição sobre a Venezuela e princípio da não intervenção
Durante a entrevista, Lula também reforçou a posição do governo brasileiro sobre conflitos internacionais, baseada no princípio da "não intervenção". Ao comentar a situação na Venezuela, o presidente declarou que "essa posição é muito clara", lembrando que o Brasil adotou a mesma postura ao condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia e a ofensiva em Gaza.
"Não podemos aceitar que um chefe de Estado de um país invada outro país e capture o presidente. Isso é inaceitável. Não há explicação para isso, e não é aceitável", afirmou Lula. Com Nicolás Maduro preso, o presidente brasileiro defendeu que a prioridade agora deve ser "consolidar o processo democrático na Venezuela, restabelecer a democracia no país".
Lula argumentou que eventuais julgamentos devem ocorrer dentro da Venezuela, porque "se Maduro tiver que ser julgado, ele deve ser julgado em seu próprio país, e não em um tribunal no exterior". O petista voltou a defender o princípio histórico da política externa brasileira contra interferências internacionais, criticando a intervenção norte-americana no país vizinho e lembrando que, nos anos 1960, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil sofreram golpes militares com influência política dos Estados Unidos na região.
Classificando a trajetória recente venezuelana como "uma experiência negativa", Lula reforçou que qualquer solução deve partir dos próprios venezuelanos: "eu espero que a questão venezuelana possa ser resolvida pelo próprio povo da Venezuela, e não por interferência estrangeira de qualquer outro país".
As declarações de Lula durante a entrevista à Índia Today destacam a continuidade da política externa brasileira focada em soberania e cooperação multilateral, enquanto o governo busca fortalecer laços com nações emergentes como parte do Brics.



