Estratégia de Lula para reeleição envolve ampliação de alianças e isolamento de adversário
O presidente Lula (PT) iniciou uma complexa operação política com o objetivo claro de fortalecer sua candidatura à reeleição e isolar seu provável adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL). A estratégia se desenvolve em duas frentes principais que buscam consolidar uma base eleitoral ampla e diversificada para as próximas eleições.
Busca pelo apoio do MDB e a delicada questão da vice-presidência
Em um movimento considerado particularmente sensível, Lula demonstrou receptividade à ideia de alterar a composição de sua chapa presidencial. O objetivo seria atrair o MDB para sua aliança formal, o que proporcionaria mais tempo de campanha na televisão e reforçaria a mensagem de frente ampla que ele propagou na eleição de 2022.
A ordem do presidente, já assimilada pelo PT, é ampliar ao máximo possível seu arco de alianças eleitorais. Articuladores petistas acreditam que a maioria do eleitorado já definiu seu posicionamento, restando apenas cerca de 10% dos votos verdadeiramente em disputa. Por essa razão, qualquer iniciativa que possa atrair mais eleitores é considerada valiosa.
"Temos que trabalhar, fazer alianças para ganhar as eleições", declarou Lula durante o evento de aniversário do PT em Salvador. "Não estamos com essa bola toda em todos os estados, tem estados que precisamos compor. A gente precisa decidir se quer ganhar ou se quer perder. Como eu quero ganhar, Edinho [Silva, presidente do PT], você vai ter que fazer as alianças".
A tentativa de atrair o MDB é delicada porque envolveria a substituição do atual vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), que é próximo do chefe do governo e deseja permanecer no cargo em caso de reeleição. Além disso, diretórios estaduais poderosos do MDB, como os de São Paulo e do Rio Grande do Sul, devem resistir a uma aliança com Lula.
Panorama interno do MDB e possíveis candidatos à vice
Dos 27 diretórios estaduais do MDB, 17 estariam afastados de Lula enquanto 10 estariam próximos ao governo petista. Existe o risco concreto de que Lula possa magoar e perder seu atual vice, sem garantir que a aliança seja aprovada na convenção emedebista, o que inviabilizaria a coligação.
Alckmin já comunicou à cúpula do PT que, caso não integre a chapa presidencial, apoiará a reeleição de Lula sem se candidatar a nenhum cargo. O presidente discutiu o assunto em dezembro com os senadores lulistas Renan Calheiros (MDB-AL) e Eduardo Braga (MDB-AM), ficando de marcar nova reunião que ainda não ocorreu.
Recentemente, Lula declarou publicamente que Alckmin tem "um papel a cumprir" na eleição em São Paulo, frase interpretada como sinal de que deseja o vice concorrendo a algum cargo e reforçando seu palanque no estado com maior eleitorado. Emedebistas envolvidos na articulação avaliam que a declaração foi uma espécie de autorização para avançarem na tentativa de formar maioria partidária favorável à aliança.
Durante as celebrações dos 46 anos do PT, Lula elogiou publicamente Alckmin: "O Geraldo Alckmin foi uma dessas coisas que Deus fez acontecer na minha vida. É um homem extraordinário que eu respeito e admiro". O vice-presidente estava presente no evento.
Na reunião com os dois emedebistas, Lula afirmou ver no MDB a única chance de agregar um novo partido à sua aliança, que deve contar principalmente com siglas de esquerda. Renan Calheiros explicou ao petista que a única maneira de tentar levar o MDB para a coligação seria oferecendo a vice-presidência, argumento forte para a convenção que decidirá o caminho do partido nas eleições.
Possíveis nomes para a vice-presidência e obstáculos regionais
Três emedebistas são cotados para a vice de Lula, caso a articulação seja bem-sucedida:
- O ministro dos Transportes, Renan Filho
- O governador do Pará, Helder Barbalho
- A ministra do Planejamento, Simone Tebet
O principal destino especulado para Tebet, porém, é uma candidatura ao Senado por São Paulo. Existe a possibilidade de ela mudar de partido, considerando que o MDB paulista apoia o governador bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos). Aliados de Lula no PT e no MDB ainda tentam encontrar uma solução que permita a Tebet ser candidata e apoiar a reeleição sem mudar de legenda.
Tanto o presidente do PT, Edinho Silva, quanto Eduardo Braga desejam conversar com o presidente do MDB, Baleia Rossi, sobre o tema. O principal obstáculo a uma aliança entre Lula e o MDB paulista é a proximidade do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), com Tarcísio, que foi fundamental para sua reeleição em 2024.
Estratégia de neutralização do centrão e articulações regionais
Paralelamente à tentativa de atrair o MDB, Lula busca garantir a neutralidade dos principais partidos do centrão na disputa nacional. O objetivo é que essas legendas não ofereçam apoio formal a Flávio Bolsonaro e que suas direções nacionais não dificultem a busca por alianças com líderes locais.
Um dos movimentos mais significativos nesse sentido foi a reunião de Lula com o presidente do PP, Ciro Nogueira, na qual ouviu uma proposta de neutralidade nacional do partido. A contrapartida seria facilitar a reeleição de Nogueira como senador no Piauí.
Deputados e senadores filiados ao PP provenientes de regiões onde Lula é mais popular, como o Nordeste, consideram certo que a legenda liberará seus filiados para se associarem ao candidato a presidente de sua preferência.
O presidente também mira líderes locais do União Brasil, com esforço especial no Ceará. O ministro da Educação, Camilo Santana, principal líder do PT cearense, tenta impedir que o União Brasil apoie Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo governo local. Lula considera fundamental derrotar Ciro e reeleger o governador Elmano de Freitas (PT).
Federação partidária e articulações parlamentares
O PP anunciou a formação de uma federação partidária com o União Brasil, denominada União Progressista. Juntas, as duas legendas constituiriam a maior bancada da Câmara e seriam obrigadas a atuar em conjunto na eleição nacional. Ciro Nogueira é um dos líderes dessa associação, que ainda aguarda reconhecimento definitivo pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Originalmente, esse grupo desejava apoiar Tarcísio para presidente. Com a decisão do governador de concorrer à reeleição em São Paulo, a prioridade passou a ser eleger o maior número possível de congressistas, o que aumenta as possibilidades de alianças entre Lula e diretórios estaduais dessas siglas.
O presidente da República também se aproximou do presidente da Câmara, Hugo Motta. O partido de Motta, o Republicanos, possui setores interessados em disputar a eleição associados a Lula. O deputado tem participado das articulações do presidente inclusive fora de seu partido, tendo intermediado a reunião entre Lula e Ciro Nogueira.
Lula minimizou os possíveis atritos decorrentes de partidos que possuem ministérios lançarem candidatos à presidência. O recado foi direcionado principalmente ao PSD, que conta com três ministros e três pré-candidatos ao Planalto: Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Jr.
As convenções partidárias que definirão as alianças ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto, período crucial para a consolidação dessa complexa teia de articulações políticas.