Kassab é contra Boulevard São João se lei for ferida; Tarcísio defende
Kassab é contra Boulevard São João se lei for ferida

O ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), declarou nesta segunda-feira (27) que será “radicalmente contra” o projeto do Boulevard São João, apelidado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) de ‘Times Square de SP’, caso a instalação de painéis de LED desrespeite a chamada Lei Cidade Limpa. Criada por Kassab em 2006, a legislação eliminou a poluição visual na capital paulista e estabeleceu regras para a veiculação de anúncios de marcas e empresas nas ruas da cidade.

O plano do Boulevard São João prevê a instalação de quatro painéis de LED gigantes nas esquinas das avenidas São João e Ipiranga, no Centro, com exibição de pelo menos 30% de propaganda. “Minha participação nesse processo é de acompanhamento. Desde que não seja ferida a Lei Cidade Limpa, porque ela é muito rigorosa, vamos apoiar. Se houver qualquer possibilidade de afetá-la, você pode ter certeza que eu, com minha modesta presença hoje – já que não tenho cargo – estarei radicalmente contra. A Lei Cidade Limpa é uma conquista de São Paulo”, afirmou Kassab durante o 8º Fórum Paulista de Desenvolvimento, em Itu, interior do estado.

Kassab: Lei Cidade Limpa é conquista dos paulistanos

O ex-prefeito ressaltou que a cidade era a mais poluída visualmente do mundo e, com a lei, tornou-se a menos poluída. “Abalar isso é uma forma de desrespeito com milhões de paulistanos que abraçaram e respeitam a lei. Eles não merecem essa ação do Poder Público”, declarou. Os telões da chamada ‘Times Square de SP’ serão instalados pela iniciativa privada no Centro até setembro. A proposta foi aprovada pela Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU), órgão que controla a aplicação da Lei Cidade Limpa.

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O projeto gerou polêmica nas redes sociais após o governador Tarcísio de Freitas – candidato à reeleição – publicar um vídeo com inteligência artificial (IA) mostrando uma dimensão diferente do que foi aprovado pelos órgãos municipais.

Tarcísio defende projeto e promete reforço na segurança

Na quinta-feira (23), durante o lançamento oficial, Tarcísio incluiu a “Times Square paulistana” entre as ações apoiadas pelo estado para a recuperação da região, embora não tenha envolvimento direto com a iniciativa. “O que estamos fazendo é resgatar a autoestima. A cidade e o centro se confundem, então estamos devolvendo a cidade para as pessoas”, declarou o governador em entrevista coletiva ao lado do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Ele também citou a desocupação da Favela do Moinho, a construção do novo centro administrativo, empreendimentos habitacionais e a implementação de um novo sistema de bondes como parte de um “somatório de vários pequenos projetos” para atrair mais pessoas à região.

Questionado sobre sua participação, Tarcísio afirmou que o governo estadual ampliará a presença da Polícia Militar no Centro com aproximadamente 300 novos agentes. “Acho que temos um papel muito relevante na segurança pública, no monitoramento, nas câmeras, no efetivo policial. Garantir a segurança das pessoas que vão usar este espaço, que vão aproveitar e passear com suas famílias”, disse.

Vídeo com IA gerou debate sobre o projeto

Logo após o evento, o governador publicou em suas redes sociais um vídeo produzido pela prefeitura para divulgar o projeto. As imagens geradas por IA mostram as fachadas dos prédios se transformando com a instalação dos painéis de LED. Dias antes, Tarcísio havia publicado um vídeo similar em que edifícios históricos são cobertos por telões de publicidade, ao estilo da Times Square de Nova York. Na publicação, que teve mais de 3,8 milhões de acessos, o governador disse que esse é um movimento “muito legal” para recuperar o Centro e que “daqui uns dias” as imagens ilustrativas se tornariam realidade: “Estão deixando a gente sonhar”, afirmou, sem mencionar que se trata de um projeto da iniciativa privada capitaneado pela gestão do prefeito Ricardo Nunes.

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O vídeo apresentado por Tarcísio mostra os edifícios históricos da esquina da Avenida São João com a Ipiranga cobertos por painéis de LED com propaganda de empresas, filmes e eventos, no modelo da Times Square americana. No entanto, pelo projeto aprovado pela CPPU, a “Times Square paulistana” terá apenas quatro telões de LED em edifícios previamente definidos, além de uma projeção na lateral de um quinto edifício com fachada histórica.

Restrições e custos do projeto

Ao ser aprovado na CPPU, foram impostas restrições sobre o limite máximo de luminosidade para que os telões não atrapalhem os semáforos e os motoristas. O plano da ‘Times Square paulistana’ é bem diferente do vídeo de IA do governador. Segundo o projeto submetido aos órgãos da prefeitura, o custo total de implantação será de quase R$ 44 milhões no primeiro ano e de mais R$ 4,7 milhões no segundo e terceiro anos. A maior parte do valor – R$ 39 milhões – será destinada à instalação dos quatro telões de LED e suas estruturas. Já as contrapartidas sociais, com melhoria em monumentos e reforma de praças, terão custo de R$ 6 milhões.

A ideia é que o novo boulevard comece a funcionar já em setembro deste ano, antes da eleição. Todos os custos serão bancados pela iniciativa privada, por meio da empresa FDB Digital Participações Ltda – dona do Bar Brahma, que já fica na mesma esquina onde os telões serão colocados. O Boulevard São João será viabilizado por um instrumento da Lei Cidade Limpa que prevê exceções à proibição de publicidade externa mediante contrapartidas em melhorias urbanas ao município.

Nos últimos meses, a proposta passou por análise e foi aprovada em diferentes órgãos técnicos da prefeitura. O termo de compromisso da prefeitura com o grupo Fábrica de Bares foi assinado na quarta-feira (22) no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, com a participação de empresários e secretários municipais. Do estado, apenas Tarcísio participou.

Como será o projeto

De acordo com o empresário Álvaro Aoas, fundador da Fábrica de Bares, a intenção é criar um corredor cultural com programação constante de atividades artísticas, musicais e gastronômicas. “A partir das telas, estamos propondo um avanço além do LED. A ideia é fazer com que as pessoas circulem nas ruas, tragam gente para consumir e se divertir”, disse durante apresentação na sede da Associação Comercial de São Paulo.

Pela proposta, o cruzamento das avenidas São João e Ipiranga, onde será implementada a nova ‘Times Square paulistana’, terá o trânsito de veículos interditado e passará a receber eventos aos fins de semana. A expectativa é que isso aconteça a partir de setembro, quando os telões luminosos devem entrar em operação.

Os painéis de LED serão instalados em quatro edifícios no eixo das avenidas Ipiranga e São João: Cine Paris República, Edifício Herculano de Almeida, Galeria Sampa e Edifício New York. O Edifício Independência, onde funciona o Bar Brahma, foi retirado do projeto por ser tombado pelo patrimônio histórico. No lugar do telão, deverá receber projeções em sua fachada.

Cada prédio receberá um painel com dimensões específicas. O maior deles, no Edifício New York, terá 40 metros de largura por 25 metros de altura, ocupando quase toda a fachada. As estruturas serão fixadas em estruturas metálicas independentes.

O acordo estabeleceu que a publicidade poderá ocupar no máximo 30% do tempo de exibição dos telões, sendo permitida apenas a identificação institucional das marcas apoiadoras. A empresa responsável poderá vender até 10 cotas de patrocínio simultâneas, com validade de seis meses. O preço não foi divulgado. Os outros 70% serão destinados a informações culturais e de utilidade pública. Serão vetadas propagandas de varejo, jogos de azar e bets, exibição de conteúdo adulto, imagens de violência e mensagens de teor político ou religioso.

A operação será monitorada pela prefeitura e pela CPPU. Entre as regras, estão: funcionamento dos painéis apenas entre 5h e 23h; redução da luminosidade no período noturno; proibição de animações que simulem movimento ou cortes rápidos; permanência mínima de 10 segundos por imagem exibida. O termo dá poder à prefeitura para determinar redução de luminosidade, adequação de conteúdo e até suspensão das atividades, se necessário. Nunes afirmou, no entanto, que vai pedir à CPPU que reavalie a restrição que impede o funcionamento dos telões de madrugada.

Contrapartidas urbanas

Como parte do acordo, a Fábrica de Bares deverá investir cerca de R$ 8 milhões em melhorias urbanas em um perímetro de 42 mil m², entre o Largo do Paissandu e a Praça Júlio de Mesquita, no prazo de até três anos. As principais intervenções previstas são: conservação e restauro da fachada da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu; da Estátua da Mãe Preta, também no Largo do Paissandu; e do Relógio de Nichile, na Praça Antônio Prado; instalação de 72 bancos e 30 lixeiras ao longo da Avenida São João, no trecho delimitado para o projeto; implementação de projeto paisagístico focado no plantio de árvores no eixo São João-Ipiranga, seguindo Diretriz de Arborização Urbana e Plano Municipal da Mata Atlântica; e a empresa deverá promover oficinas de Zeladoria do Patrimônio Cultural.

O acordo prevê que, em caso de rescisão ou ao fim dos 36 meses, os telões terão de ser retirados, com restauração das fachadas, e todas as melhorias passarão a integrar o patrimônio público.