A Resiliência Política de Bolsonaro: Como a Influência Familiar Molda o Cenário Eleitoral
Influência de Bolsonaro Molda Cenário Eleitoral Através da Família

A Força Gravitacional de Bolsonaro na Política Brasileira

Preso e condenado, Jair Bolsonaro desapareceu da cena pública, mas sua influência política na direita brasileira permanece inabalável. O ex-presidente, mesmo enfrentando alta rejeição, demonstra uma capacidade inédita de transferir votos instantaneamente, moldando o cenário eleitoral e desafiando a lógica histórica.

O Cenário Atual do Ex-presidente

Após um cerco jurídico sem precedentes para um ex-presidente — proporcional à série de crimes contra a democracia que liderou durante sua gestão —, Bolsonaro foi condenado e detido em prisão domiciliar em agosto do ano passado, indo para regime fechado em novembro, após violar a tornozeleira. Está há pelo menos sete meses proibido de se manifestar publicamente.

Inelegível desde junho de 2023, as informações sobre ele são, há anos, as mais negativas para um líder político, envolvendo, além dos crimes e condenações, doenças graves. Surgem também, e com constância, memórias de sua atuação negacionista durante a pandemia, que resultou em centenas de milhares de mortes evitáveis.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

A Transferência Inédita de Votos

Negando a lógica da história, Jair Bolsonaro resiste como a maior força gravitacional da direita brasileira. Pesquisas da Quaest mostram que a influência do ex-presidente permanece como o principal fiel da balança para a oposição:

  • 22% votariam em qualquer nome indicado por ele
  • 25% atribuem alguma importância a seu apoio
  • Somados, são 47% que mantêm atenção aos movimentos da família Bolsonaro

Esse percentual é suficiente para levar qualquer candidato ao segundo turno, com chances semelhantes às de Lula.

O Caso Flávio Bolsonaro

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ungido candidato de forma unilateral, sem consulta aos aliados e lançado de maneira improvisada, é a prova desse poder de influência. Mês a mês as intenções de voto escorrem naturalmente de pai para filho de forma surpreendente até para o próprio clã.

Já chega a um terço do eleitorado em simulações de primeiro turno e emparelha com Lula no cenário de segundo. O mesmo efeito se daria com os governadores Tarcísio de Freitas, de São Paulo, e com Ratinho Junior, do Paraná, ou com a ex-primeira-dama Michelle se abençoados pelo líder.

Comparação com Outros Líderes Políticos

É um poder de transferência inicial de votos inédito, comparável apenas ao de Lula que elegeu Dilma Rousseff do alto de seus 83% de aprovação ao fim do segundo mandato. A diferença crucial é que, no caso do apoio de Lula a Dilma, não foi um processo instantâneo, pois exigiu muito trabalho de comunicação e de apresentação da candidata para o país.

Pesquisadores de eleições sempre afirmaram que transferência de votos nunca é automática. No caso de Bolsonaro, é. Enquanto Dilma partiu de um percentual irrisório de apenas 3% no Datafolha, em março de 2008, Flávio já larga consolidado e competitivo.

Os Desafios do Bolsonarismo

Mas é a alta rejeição que determina o teto do bolsonarismo e as chances de vitória semelhantes às de Lula, também com rejeição nas alturas. Assim como em 2022, ambas as candidaturas lutarão para diminuir resistências e convencer a parte mais independente do eleitorado.

Segundo classificação criada pela Quaest, esse grupo corresponde a 32% e é o alvo principal das campanhas. A esquerda conta hoje com 33%, sendo 19% de lulistas e 14% de não lulistas. Do outro lado, há também 33% de direita formados por 12% de bolsonaristas e 21% de não bolsonaristas.

O Xadrez Eleitoral

É mais um retrato da teoria dos três terços em que se divide o eleitorado e é constatada por diversos estudos. Tanto não lulistas de esquerda quanto não bolsonaristas de direita tendem a se agrupar naturalmente às candidaturas predominantes à medida que o segundo turno se aproxima.

Cabe aos independentes, mais resistentes à polarização, penderem mais para um lado ou para outro, com tendência a praticarem o voto útil já no primeiro turno se houver ameaça de vitória do candidato adversário.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Os Próximos Desafios para Flávio Bolsonaro

Até que ponto os atributos do ungido serão suficientes para suprir a ausência do criador na comparação direta com o poder de fogo do incumbente? É uma incógnita o desempenho de Flávio durante uma campanha presidencial. Não dá para comparar seu poder de sedução e de mobilização frente ao do pai, aos olhos atuais do eleitorado.

Pesa sobre sua imagem a desistência de um debate pela disputa a prefeitura do Rio de Janeiro por ter passado mal, em 2016. A campanha responderá se o carisma oculto do pai também será transferido para o filho.

O Legado a Ser Sustentado

Flávio terá que dar conta do espólio que envolve:

  1. A pauta de costumes
  2. A relação direta com o eleitorado evangélico
  3. A defesa da liberdade econômica
  4. O antipetismo

Entre tantas posições que o pai sustentou durante sua longa trajetória.

A Percepção de Perseguição Política

Entre os argumentos mais fortes que o favorecem está o da alegada perseguição política, com o Poder Judiciário no centro das causas. Pesquisas do Datafolha indicam que essa percepção alimenta o engajamento.

Para uma parcela significativa da base bolsonarista, votar no indicado é uma forma de protesto contra as decisões do STF, que, por sua vez, sofre com o forte desgaste da imagem pelas recentes suspeitas levantadas no caso Master e que devem render mais alguns meses de noticiário negativo.

A Convicção da Base

Em dezembro do ano passado, o instituto de pesquisas Datafolha mostrou que 91% dos eleitores de Bolsonaro não se arrependem do voto. Essa convicção cria uma barreira contra o desgaste da imagem do "mito".

Os próximos meses dirão se Flávio terá talento para enfrentar um adversário carismático, com números positivos na economia, compensando o sumiço forçado do pai. O desejo real da massa bolsonarista é ver Jair vestindo a faixa. Estará o filho Zero Um à altura desse apetite?