Flávio Bolsonaro supera Lula em crescimento digital enquanto presidenciáveis disputam eleitorado
Flávio Bolsonaro supera Lula em crescimento digital em pré-campanha

Flávio Bolsonaro avança nas redes enquanto Lula mantém discurso crítico sobre tecnologia

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vem conquistando espaço significativo nas redes sociais desde que foi anunciado como pré-candidato à Presidência da República, registrando crescimento mais acelerado no ambiente digital do que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Esta movimentação ocorre em um momento crucial, onde pesquisas de intenção de voto indicam empate técnico entre os dois políticos em um eventual segundo turno eleitoral.

Disparidade digital entre os presidenciáveis

Enquanto o senador amplia sistematicamente sua presença nas plataformas digitais, o presidente Lula tem demonstrado resistência ao universo online. Em discursos recentes, o mandatário federal afirmou diversas vezes que não utiliza celular e costuma criticar o uso excessivo do aparelho, prática comum entre grande parcela da população brasileira. Especialistas em comunicação política avaliam que esse tipo de posicionamento pode afastar parte considerável do eleitorado conectado.

O avanço digital de Flávio Bolsonaro acompanha a consolidação de sua candidatura e o crescimento consistente nas pesquisas eleitorais. A pedido da Folha de S.Paulo, a consultoria de dados Bites analisou minuciosamente o desempenho digital dos principais nomes da política nacional, comparando semana a semana qual líder apresentou maior "tração" nas redes sociais entre 2022 e 2026.

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Evolução do cenário político-digital brasileiro

No marketing político contemporâneo, o termo "tração" refere-se especificamente à capacidade de um perfil crescer de forma consistente na internet, medido pelo volume de interações como curtidas, comentários e compartilhamentos. Nos primeiros anos analisados, Jair Bolsonaro dominava com ampla folga o cenário digital brasileiro. Segundo analistas especializados, sua eleição em 2018 teve forte influência de uma estrutura digital voltada para mobilização política.

"A direita apostou primeiro nas redes, enquanto a esquerda demorou a perceber a relevância estratégica desse ambiente", afirma André Eler, diretor técnico da Bites. Após a eleição de Lula em 2022, o cenário mudou temporariamente. A vitória do petista nas urnas gerou entusiasmo nas redes sociais e o presidente chegou a superar Bolsonaro em engajamento digital por seis semanas consecutivas.

Mudanças no panorama de engajamento

Este cenário favorável a Lula voltou a se inverter pouco tempo depois. A liderança digital de Bolsonaro se manteve até agosto de 2025, quando ele passou a cumprir prisão domiciliar e ficou incomunicável. Meses depois, após condenação por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente foi transferido para o regime fechado de cumprimento de pena.

Nesse período específico, Lula tentou fortalecer sua presença nas redes com o apoio estratégico da Secretaria de Comunicação Social, comandada pelo ministro Sidônio Palmeira. Esta iniciativa ajudou o presidente a liderar o engajamento digital por impressionantes 15 semanas no ano passado, demonstrando a eficácia de investimentos em comunicação digital governamental.

Ascensão digital de Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro, que inicialmente possuía menor alcance orgânico nas redes sociais, começou a crescer exponencialmente quando passou a atuar como principal porta-voz do bolsonarismo. O salto significativo de popularidade ocorreu após o pai anunciar, em dezembro, que ele seria o candidato da família à Presidência da República. Desde então, o senador passou a liderar o engajamento digital em várias semanas deste ano eleitoral.

Em números absolutos de seguidores, Lula ainda mantém vantagem histórica. Porém, o crescimento recente de Flávio tem sido notavelmente mais acelerado e consistente. Desde dezembro, o senador conquistou aproximadamente 3,4 milhões de novos seguidores, enquanto o presidente somou cerca de 378 mil no mesmo período comparativo.

"As taxas de crescimento digital de Flávio já se aproximam das que Bolsonaro teve no auge de sua popularidade online", afirma Eler, destacando a velocidade da ascensão digital do pré-candidato.

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Estratégias de comunicação divergentes

Aliados do senador atribuem a expansão nas redes ao interesse genuíno do público em conhecer melhor o nome escolhido por Jair Bolsonaro para representar o grupo político nas próximas eleições. Segundo interlocutores próximos, a estratégia atual busca apresentar Flávio como uma figura com perfil de estadista, capaz de representar adequadamente o país no cenário internacional.

As redes sociais do senador têm destacado sistematicamente viagens e encontros políticos no exterior, construindo uma imagem de internacionalização. Em um dos vídeos publicados recentemente, ele aparece conversando fluentemente em espanhol com o presidente da Argentina, Javier Milei, durante a posse do novo presidente do Chile, José Antonio Kast.

Pesquisas eleitorais e posicionamentos

De acordo com pesquisa Datafolha recente, Lula aparece com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 32% de Flávio Bolsonaro. Em um eventual segundo turno, os dois estão tecnicamente empatados: o senador registra 43% e o presidente alcança 46%, dentro da margem de erro estatística.

Enquanto Flávio aposta fortemente na presença digital como estratégia central, Lula mantém um discurso crítico em relação à dependência tecnológica contemporânea. Durante a inauguração de um centro médico no Rio de Janeiro, o presidente sugeriu que as pessoas deveriam "fazer um cafuné no marido ou na mulher" ao acordar, em vez de olhar imediatamente o celular.

Análise especializada sobre comunicação política

Para a especialista em marketing digital Mariana Bonjour, esse tipo de discurso presidencial pode gerar distanciamento significativo com o eleitorado conectado. "O presidente acaba ficando distante do cidadão comum, e outro candidato ocupa estrategicamente esse espaço digital", afirma a analista.

Ela avalia que, apesar dos esforços consideráveis da comunicação do governo federal, as redes sociais de Lula ainda funcionam como uma extensão do noticiário tradicional, sem desenvolver uma linguagem própria e adaptada para o ambiente digital. "Não existe equipe especializada ou orçamento que substitua a presença direta e autêntica do candidato na rede. Autenticidade digital não se terceiriza", enfatiza Bonjour.

Formatos e gerações em conflito

Segundo a especialista, o formato mais valorizado pela internet atualmente é o entretenimento combinado com comunicação espontânea e pessoal. Enquanto as publicações de Lula costumam ter produção elaborada e institucional, os conteúdos de Flávio frequentemente são gravados pelo próprio senador, sem intermediação de equipe de comunicação.

Um exemplo recente desta estratégia foi um vídeo publicado na sexta-feira (13), em que ele pediu orações para o pai, internado na UTI com broncopneumonia, criando conexão emocional com seguidores. O presidente também tem adotado postura crítica em relação às grandes empresas de tecnologia globais.

Componentes ideológicos e geracionais

Em seu terceiro mandato presidencial, Lula apresentou projetos para regulamentar redes sociais no Brasil e defendeu regras específicas para o uso de inteligência artificial. Para o estrategista político Paulo Loiola, existe também um componente ideológico profundo na relação da esquerda com o mundo digital.

"As big techs são grandes empresas estrangeiras muitas vezes associadas à direita política, enquanto a esquerda tem uma tradição baseada na mobilização presencial e comunitária", analisa Loiola. Segundo ele, a diferença geracional também influencia significativamente neste cenário: Lula tem 80 anos, enquanto Flávio Bolsonaro tem 44 anos.

Loiola observa que, embora o contato direto com eleitores continue sendo importante na política brasileira, a internet ampliou dramaticamente o alcance da comunicação política. "Não vou afirmar que o aperto de mão tradicional deixou de importar, mas ninguém consegue estar fisicamente em todos os lugares simultaneamente. A internet permite alcançar quantitativamente muito mais gente", conclui o estrategista, destacando a transformação digital na política contemporânea.