Governo Lula extingue taxa das blusinhas em recuo tributário histórico
Fim da taxa das blusinhas: governo Lula recua em tributo

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva extinguiu nesta terça-feira, 12, a chamada “taxa das blusinhas”, num dos maiores recuos tributários da atual gestão. A medida provisória assinada por Lula zera a cobrança federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 feitas em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress. A decisão encerra um ciclo de quase três anos de disputas políticas, pressão do varejo nacional, lobby das gigantes asiáticas e desgaste popular para o Palácio do Planalto. A trajetória da taxa virou um símbolo do embate entre indústria nacional, arrecadação do governo e o consumo popular na era do comércio eletrônico internacional.

O início da ofensiva contra importações baratas

Em 2023, ainda no primeiro ano do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, a Receita Federal passou a mirar o crescimento explosivo das importações de pequeno valor vindas principalmente da China. O avanço das plataformas asiáticas havia transformado o consumo digital brasileiro. Roupas, eletrônicos e acessórios passaram a ser comprados diretamente do exterior, muitas vezes sem tributação efetiva. Naquele momento, o Ministério da Fazenda, comandado por Fernando Haddad, argumentava que havia “concorrência desleal” contra o varejo brasileiro. Empresas nacionais reclamavam que varejistas estrangeiras utilizavam brechas alfandegárias para subfaturar produtos e evitar impostos.

A primeira crise e o nascimento da “taxa das blusinhas”

O primeiro grande personagem dessa história foi justamente Haddad. Em abril de 2023, o governo anunciou que acabaria com a isenção para encomendas internacionais de até US$ 50 entre pessoas físicas. A reação foi imediata. Nas redes sociais, influenciadores, consumidores e parlamentares passaram a acusar o governo de “taxar os pobres”. A expressão “taxa das blusinhas” nasceu nesse momento, impulsionada por memes e vídeos de consumidores revoltados. Diante da repercussão negativa, Lula recuou parcialmente poucos dias depois. O governo decidiu manter a isenção formal para remessas de até US$ 50 entre pessoas físicas, mas criou um novo modelo de fiscalização para plataformas estrangeiras.

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O Remessa Conforme e a entrada das gigantes asiáticas

Foi aí que surgiu o programa Remessa Conforme, lançado em 2023 pela Receita Federal. O sistema permitia que empresas estrangeiras recolhessem tributos antecipadamente, prometendo maior rapidez nas entregas e rastreamento das compras. As gigantes asiáticas aderiram rapidamente ao programa. A Shein tornou-se uma das principais vozes públicas na defesa do novo modelo e iniciou ofensiva política e publicitária no Brasil. A empresa prometeu nacionalizar parte da produção, criar empregos e ampliar investimentos locais.

O lobby do varejo nacional em Brasília

Do outro lado, empresários do varejo nacional intensificaram a pressão em Brasília. O principal rosto desse movimento foi Luciano Hang, dono da Havan, além de associações como a Frente Parlamentar do Comércio e entidades da indústria têxtil. O argumento era que produtos chineses chegavam ao consumidor brasileiro com preços impossíveis de competir.

Congresso oficializa a cobrança

Em 2024, o Congresso entrou de vez na disputa. Durante a tramitação do programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), parlamentares incluíram um dispositivo criando oficialmente a cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. A taxação passou a valer mesmo para encomendas dentro do Remessa Conforme. O episódio expôs divisões dentro do próprio governo Lula. Enquanto parte da equipe econômica defendia a medida por razões fiscais e de proteção industrial, aliados políticos alertavam para o impacto popular negativo.

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Lula tenta se afastar do desgaste político

Lula tentou inicialmente se afastar politicamente da medida. Em entrevistas e bastidores, o presidente sinalizava desconforto com o desgaste provocado pela taxação. Ainda assim, sancionou a cobrança em 2024, consolidando oficialmente a “taxa das blusinhas”. A partir daí, o tema passou a perseguir o governo. Pesquisas internas do Planalto mostravam rejeição elevada entre jovens e consumidores de baixa renda, especialmente mulheres, público fortemente ligado ao consumo em marketplaces internacionais. O assunto virou munição constante da oposição nas redes sociais.

A arrecadação cresce, mas pressão política aumenta

Em 2025, a arrecadação federal com o imposto cresceu fortemente. Mas, paralelamente, cresceu a pressão política para derrubar a medida. Parlamentares governistas passaram a defender publicamente o fim da cobrança. O então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, foi apontado nos bastidores como um dos integrantes do governo favoráveis à revogação. Já o vice-presidente Geraldo Alckmin adotava discurso mais cauteloso, preocupado com os impactos sobre a indústria nacional.

O recuo definitivo em 2026

Ao longo de 2026, com a queda de popularidade do governo e a aproximação do calendário eleitoral, o debate ganhou novo peso político. Integrantes do Planalto passaram a enxergar a taxa como um símbolo de desgaste junto à classe média digital e ao eleitorado jovem. Nos bastidores, o Ministério da Fazenda resistia ao recuo completo. O secretário-executivo Dario Durigan afirmou que o governo não abriria mão do Remessa Conforme, embora admitisse discutir o fim da alíquota de 20%. A pressão política, porém, venceu a resistência fiscal. Nesta terça-feira, Lula assinou a medida provisória que extingue a cobrança federal sobre compras internacionais de até US$ 50. O governo manteve o Remessa Conforme e os mecanismos de fiscalização aduaneira, mas retirou o imposto que havia se tornado um dos temas mais tóxicos da atual gestão.

Um símbolo do embate entre arrecadação e consumo popular

O vai e vem da “taxa das blusinhas” expôs uma contradição central do governo Lula. Ao mesmo tempo em que buscava proteger a indústria brasileira e aumentar arrecadação, o governo enfrentou o custo político de mexer num hábito de consumo popular consolidado pela digitalização e pelo avanço das plataformas asiáticas. No fim, a medida que nasceu como ferramenta de equilíbrio tributário terminou transformada num problema político de grandes proporções para o Planalto.