O Ocaso das Instituições: Como a Desconfiança Molda o Futuro Político do Brasil
No início de um ano eleitoral crucial, o horizonte político brasileiro é marcado por uma profunda e crescente desconfiança da população em relação às suas instituições e representantes. O Legislativo e o Judiciário, que deveriam ser reconhecidos como pilares fundamentais da democracia, são cada vez mais vistos como agentes sistemáticos de desvios de conduta, onde as exceções positivas não conseguem superar a percepção negativa dominante na opinião pública.
Um Cansaço que Alimenta a Negação da Política
Como resultado desse cenário, observa-se um cansaço generalizado em relação a "tudo que está aí" – um sentimento que ecoa desde as manifestações de junho de 2013 e que agora alimenta a ascensão de representantes que negam a política como forma de organizar a vida em sociedade. Essa desilusão não surge do nada: ela é alimentada por anos de escândalos, morosidade e uma polarização agravada pela desinformação, criando uma crise de representação sem precedentes.
Os Números Alarmantes da Desconfiança
Os dados são eloquentes e preocupantes. Uma pesquisa do Datafolha realizada em agosto de 2025 revelou que 78% dos brasileiros acreditam que deputados e senadores priorizam seus próprios interesses em vez de defender a população que deveriam representar – uma quase unanimidade que reflete a profundidade do problema.
O mesmo estudo mostrou ainda que:
- 68% creem que a Justiça age em favor de seus próprios objetivos
- 59% dizem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pensa mais em si próprio do que na população brasileira
Há anos, o Congresso Nacional se mantém como a instituição com os maiores índices de desconfiança, sempre apresentando rejeição superior à aprovação. Quando comparamos a vida real dos cidadãos – com suas dificuldades econômicas, insegurança alimentar, precariedade dos serviços públicos e exposição aos efeitos da crise climática – com o desempenho dos parlamentares, os resultados das pesquisas adquirem uma dramaticidade que justifica tanta rejeição.
O Abismo Entre Parlamento e Realidade Nacional
Enquanto o brasileiro comum enfrenta desafios cotidianos, as notícias vindas da capital federal frequentemente trazem sucessivos escândalos envolvendo parlamentares. Do mensalão à Lava-Jato, passando pelo orçamento secreto e tantos outros casos, essas revelações consolidam a imagem do Congresso como um espaço privilegiado para negociações pouco transparentes, sempre voltadas para benefícios próprios.
Do ponto de vista do cidadão, não há ações políticas concretas que colaborem para amenizar as mazelas do cotidiano, mas abundam atitudes ilícitas que só contribuem para piorar esses problemas estruturais. Esse abismo percebido entre a atuação parlamentar e as necessidades reais da população ajuda a entender a baixa reputação do Parlamento brasileiro.
O Judiciário Sob Suspeita
A avaliação popular não é muito diferente em relação ao Poder Judiciário. Mesmo com a recente e decisiva atuação do Supremo Tribunal Federal em defesa da democracia contra tentativas de golpe de Estado, persiste uma percepção geral mais negativa do que positiva.
Uma pesquisa da Quaest realizada em setembro de 2025 mostrou que há cerca de 49% de desconfiança da população em relação ao Judiciário, sendo que esse número é fortemente influenciado pela orientação política – eleitores de direita tendem a desconfiar mais da Corte do que eleitores de esquerda.
Mas não é apenas a polarização que influencia essa avaliação. Estudos da Fundação Getulio Vargas e do Conselho Nacional de Justiça apontam para problemas estruturais:
- Morosidade e burocracia excessiva
- Uso do "juridiquês" que dificulta a compreensão das decisões judiciais
- Alto custo do acesso a bons advogados, transformando a assessoria jurídica em privilégio para poucos
Essa impressão de desigualdade no acesso à Justiça foi confirmada por 90% dos advogados ouvidos pelo Datafolha em 2021, que afirmaram que a Justiça trata melhor aqueles de classes sociais mais altas e com maiores rendas. O recente escândalo do Banco Master, com possíveis envolvimentos de parentes de ministros, contribui para aprofundar ainda mais essa crise de imagem do Poder Judiciário.
O Executivo em Meio à Tempestade
A imagem do Executivo sofre forte influência desse clima de descrédito generalizado em relação às autoridades. A rejeição ao atual ocupante do cargo presidencial permanece próxima a 50% em todos os levantamentos de intenção de voto, impondo um teto significativo para possíveis reeleições.
Esse cenário exige um esforço considerável do governo para melhorar sua avaliação, condição necessária para diminuir a rejeição. No entanto, esse esforço esbarrará não apenas na desconfiança de metade da população, mas também nos embates constantes com o Congresso por emendas e aprovações de projetos de interesse governamental.
O Agravante da Desinformação
Essa crise institucional que emoldura as eleições de 2026 tem como agravante adicional o ambiente de desinformação alimentado pelo desenvolvimento da inteligência artificial ao alcance das campanhas políticas. Além de toda a desconfiança consolidada por anos de desmandos e abusos, o eleitor brasileiro se vê em um cenário onde não sabe em qual fonte confiar.
As armadilhas informacionais, por sua natureza ágil e de grande alcance, muitas vezes escapam à capacidade do Tribunal Superior Eleitoral de eliminação e punição no tempo necessário. A proteção que muitos eleitores encontram é o refúgio em "bolhas" digitais onde conseguem se reconhecer, mas que acabam por radicalizar ainda mais a polarização política.
2026: Uma Encruzilhada para o Futuro Democrático
É nesse ambiente complexo e desafiador que 2026 se apresenta como uma verdadeira encruzilhada para o futuro do Brasil. As eleições refletirão a forma como os brasileiros olharam para suas instituições e representantes durante todo o ano, mas o resultado das urnas, por si só, não será suficiente para devolver a confiança majoritária na Presidência da República.
Dificilmente um presidente atingirá novamente a aprovação estratosférica de 83% obtida por Lula ao final de seu segundo mandato, em 2010. A divisão profunda do país impõe um ambiente muito mais severo para quem irá comandar o país a partir de 2027.
As eleições definirão como o Brasil será conduzido nos próximos anos, mas a crise de representação e a desconfiança nas instituições provavelmente permanecerão, independentemente dos legisladores e agentes políticos eleitos. O desafio será não apenas escolher novos representantes, mas reconstruir a confiança em um sistema político que parece ter perdido sua conexão com as necessidades reais da população brasileira.



