Copom troca linguagem técnica por 'economês' mais acessível em meio a incertezas globais
Copom adota linguagem mais clara em ata com redução da Selic

Copom adota linguagem mais clara em meio a cenário internacional incerto

Em um contexto global marcado por tensões geopolíticas e incertezas econômicas, o Comitê de Política Monetária do Banco Central brasileiro apresentou uma mudança significativa em sua comunicação. A ata da reunião de 18 de março de 2026, que determinou a primeira redução da taxa Selic desde junho de 2025, trouxe um texto notavelmente mais acessível ao público geral.

Do 'coponês' ao 'economês': uma transformação na comunicação

A mudança na linguagem coincide com alterações na diretoria do Banco Central. Desde o fim do mandato do economista Diogo Guillen em dezembro de 2025, a diretoria de Política Econômica passou a ser acumulada por Paulo Pichetti, experiente economista que anteriormente respondia pela diretoria de assuntos ligados à dívida externa e relações econômicas internacionais.

O resultado prático desta mudança foi evidente: a ata de março de 2026 contém apenas 18 tópicos para explicar a situação da economia internacional e seus reflexos sobre o Brasil, enquanto a última reunião com Guillen apresentava 19 tópicos. Os recordes recentes chegaram a 27 tópicos em março de 2025 e dezembro de 2024.

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Objetividade e redução de jargões técnicos

Analistas do mercado financeiro notaram imediatamente a diferença. O Bradesco destacou que "a ata adicionou poucos elementos em relação ao comunicado", indicando maior objetividade e concisão. Um dos indicadores mais reveladores foi a redução no uso do termo técnico "desancoragem", que apareceu apenas uma vez no documento.

Este jargão econômico refere-se às expectativas futuras dos agentes econômicos para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo no horizonte do Copom - 18 meses à frente. Segundo as expectativas semanais da Pesquisa Focus do Banco Central, o IPCA projetado para o segundo trimestre de 2027 era de 3,2%, próximo ao centro da meta de 3% com tolerância de 1,5% para mais ou para menos.

Cenário internacional turbulento

A mudança na comunicação ocorre em um momento particularmente delicado para a economia global. O agravamento da guerra do Golfo entre Israel, Estados Unidos e Irã, com o espalhamento do conflito para países vizinhos produtores de petróleo e gás, impacta diretamente o suprimento de energia e outros insumos essenciais.

Nos mercados internacionais, observa-se volatilidade significativa. No mercado futuro de commodities, os contratos para entrega em junho passaram a valer como referência, com o contrato de maio sendo negociado acima de US$ 100 novamente. Os mercados de ações operam com ligeira queda, refletindo a incerteza quanto aos objetivos do governo Trump e suas estratégias diplomáticas erráticas.

No mercado cambial, o dólar valorizou-se frente às principais moedas mundiais e também contra o real brasileiro, cotado a R$ 5,2440 no horário de Brasília, com valorização de 0,21%.

O futuro da comunicação do Copom

A apresentação do Relatório de Política Monetária nesta quinta-feira, com a participação do presidente Gabriel Galípolo e Paulo Pichetti, deverá oferecer mais indicações sobre se a mudança no estilo de comunicação veio para ficar. Especialmente relevante será observar se Galípolo dará sinais sobre as indicações para as duas diretorias vagas do Banco Central - a de Política Econômica e a de Organização do Sistema Financeiro Nacional.

Paulo Pichetti traz consigo uma extensa experiência no acompanhamento de indicadores econômicos, tendo comandado por muitos anos a elaboração de índices de preços e o acompanhamento do Produto Interno Bruto no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas. Sua influência parece estar transformando não apenas as decisões de política monetária, mas também a forma como essas decisões são comunicadas ao público e aos mercados.

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