BRB aguarda aprovação de projeto de socorro em até três semanas para evitar liquidação
Um parecer interno do Banco de Brasília (BRB), assinado neste domingo (1º) pela Associação de Advogados da instituição, aponta que a liquidez do banco está preservada, mas existe uma necessidade urgente de incrementar seu capital. O documento, ao qual o g1 teve acesso, recomenda a aprovação pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) do projeto de lei que autoriza o uso de nove imóveis públicos do DF para ajudar na recapitalização do BRB.
Proteção de ativo público essencial
"Trata-se menos de 'salvar' o BRB e mais de proteger e capitalizar um ativo público rentável e essencial ao DF — preservando empregos, empresas e programas sociais — contra um evento extraordinário, com salvaguardas robustas e fiscalização contínua", destaca a nota técnica. O parecer enfatiza ainda que "o banco mantém liquidez para honrar compromissos de curto prazo e operar normalmente".
O presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, está na CLDF para detalhar a situação patrimonial da instituição. Os deputados devem voltar a se reunir no período da tarde para discutir o projeto de lei. Entre 2024 e 2025, o BRB injetou R$ 16,7 bilhões para o Banco Master. Desse montante, segundo a Polícia Federal, pelo menos R$ 12,2 bilhões envolvem operações com fortes indícios de fraude.
Contexto das investigações
Ao longo de meses, o BRB tentou fechar um acordo para comprar o Banco Master. A operação contava com o apoio do governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), mas foi barrada pelo Banco Central. O Ministério Público Federal identificou "indícios de participação consciente dos dirigentes do BRB no suposto esquema fraudulento engendrado pelos gestores do Banco Master".
Nelson Antônio de Souza assumiu a presidência do BRB após a operação Compliance Zero, em novembro de 2025, mirar o então presidente do banco, Paulo Henrique Costa. A atual gestão do BRB e uma auditoria independente seguem investigando a situação interna da instituição.
Pior cenário: liquidação pelo Banco Central
Apesar de afirmar que não se trata de uma operação de salvamento, a associação não descarta o pior cenário: a liquidação do banco pelo Banco Central se os níveis prudenciais de capital não forem recompostos. Até o momento, o BC não emitiu qualquer posicionamento nesse sentido. O documento aponta ainda a possibilidade de descontinuidade de linhas de crédito e serviços caso a situação não seja resolvida.
Pressa do GDF para votação
Se houver acordo, o projeto de lei de autoria do governador Ibaneis Rocha sobre o uso dos imóveis para reforçar o capital do BRB pode ser pautado para votação nesta terça-feira (3). Deputados de oposição e até aliados de Ibaneis, no entanto, vêm expressando resistência ao tema.
Do ponto de vista dos parlamentares de oposição, o projeto é visto como uma manobra para "salvar o calendário eleitoral" dos agentes políticos — Ibaneis Rocha, Celina Leão e aliados —, e não para salvar o patrimônio do BRB. O governo Ibaneis esperava ter aprovado o projeto ainda em fevereiro. Quanto maior o "atraso", mais complicadas ficam as condições do BRB para captar dinheiro no mercado financeiro.
O governador Ibaneis nunca enfrentou dificuldades para aprovar os projetos que enviou à Câmara Legislativa desde que assumiu o Palácio do Buriti, em 2019. O texto sobre os imóveis é visto como "teste" para saber o quanto o escândalo do Banco Master abalou o apoio de Ibaneis junto a seus aliados.
Assembleia de acionistas e plano preventivo
Enquanto aguarda o aval da Câmara Legislativa para usar esses imóveis, o BRB já convocou uma assembleia de acionistas para "incorporar" esses valores ao patrimônio. A reunião virtual está marcada para 18 de março. A proposta que será levada aos investidores prevê emitir até 1,67 bilhão de ações ordinárias para captar dinheiro no mercado e reforçar o patrimônio da instituição.
Com essa emissão, o BRB espera aumentar o próprio capital social do banco em, no mínimo, R$ 529 milhões – e, no máximo, R$ 8,86 bilhões. Atualmente, o capital social do BRB é de R$ 2,34 bilhões. Se conseguir captar o montante máximo, o BRB passaria a um capital de R$ 11,2 bilhões – cifra quase quatro vezes maior que o valor atual.
No início de fevereiro, o BRB entregou ao Banco Central um "plano preventivo" com medidas para recompor seu patrimônio e evitar o descumprimento de regras de solidez do mercado financeiro brasileiro. O documento é mantido sob sigilo.
Entendendo o empréstimo e as garantias
O empréstimo, que pode inclusive ser tomado junto ao Fundo Garantidor de Crédito, é uma das hipóteses citadas pelo BRB no plano "preventivo" entregue ao Banco Central há duas semanas, segundo apurou o g1. Se o empréstimo for tomado, esses recursos vão ajudar o BRB a melhorar o perfil de seus ativos – ou seja, reduzir o risco atrelado a seu patrimônio.
O objetivo é garantir que o banco permaneça sólido e não gere desconfianças no mercado, evitando abalos à credibilidade do BRB. Com essa garantia do governo do DF, o BRB teria condições de captar recursos em condições mais favoráveis – com juros menores, por exemplo – para dar mais consistência ao balanço patrimonial do banco, abalado após as transações mal-sucedidas para a compra do Banco Master, nos últimos anos.
Em compensação, caso não consigam honrar o empréstimo no futuro, o BRB e o governo do DF podem se ver obrigados a alienar (vender) esses imóveis para pagar o compromisso assumido.



