A pergunta 'Será que é hora de mudar ou de parar?' ecoa entre trabalhadores de diversas áreas e fases da vida. Este é o tema da primeira reportagem apresentada por William Bonner no Globo Repórter, exibido nesta sexta-feira (1º). Bonner destaca que, em qualquer tipo de trabalho, mesmo quando a pessoa gosta do que faz, é normal surgirem questionamentos quando a atividade deixa de proporcionar o mesmo prazer. A dúvida traz insegurança e ansiedade, e tudo começa a ficar confuso. O jornalista conversou com brasileiros que passaram por mudanças na carreira e ouviu especialistas para orientar uma transição mais segura.
Repensando o trabalho
Questionar o próprio trabalho, pensar em mudar de rumo ou buscar um novo significado para a profissão deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros. Uma pesquisa recente constatou que 61% das pessoas pretendiam procurar um novo emprego em 2026. Segundo a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, essa inquietação tem explicação no funcionamento do cérebro. 'O que o cérebro gosta é de fazer as coisas e notar que fez direito. É esperado que o prazer diminua conforme repetimos uma mesma ação', explica. 'Ter uma oportunidade de fazer uma coisa diferente é abrir uma porta para um mundo completamente novo, onde o cérebro pode experimentar novas ações', completa.
Da biologia para a confeitaria
Esse movimento transformou a vida de Diva de Oliveira, bióloga, pesquisadora e professora durante quase 20 anos. Apesar da carreira consolidada, ela não se sentia mais realizada. 'Eu não tinha mais o prazer que tinha no início', conta. Incentivos negativos não faltaram: 'Todo mundo dizia que era loucura largar', lembra. A virada veio com a confeitaria, uma paixão antiga herdada da infância e das lições da mãe, dona Jandira, cozinheira por toda a vida. Diva estudou, se profissionalizou e abriu um ateliê. Hoje, encontra na cozinha a paz que não sentia antes. 'Aqui eu tenho felicidade', resume. Além de confeiteira, Diva dá aulas de empreendedorismo para mulheres negras, pardas e indígenas, incentivando a profissionalização e a autonomia financeira. 'A vida é curta demais para ficar em algo que não te faz feliz, mas a mudança precisa ser feita com consciência', aconselha.
Sabonetes, perfume e identidade
A pandemia foi um divisor de águas para Daniela Loss, que deixou um emprego estável de 22 anos no setor bancário. 'Eu não era mais a Daniela, eu era a Daniela do banco', conta. O desejo de uma vida mais tranquila veio acompanhado de depressão e dúvidas, até que uma pequena loja perfumada em uma viagem despertou algo novo. Daniela voltou a Petrópolis e aprendeu a fazer sabonetes artesanais. O primeiro ficou 'muito feio', brinca, mas ela insistiu. Hoje, vende em feiras, na internet e acumula milhões de visualizações nas redes sociais. 'O artesanato me provou que eu sou capaz', diz. Para ela, persistir foi tão importante quanto acreditar.
Trabalhar menos meses, viver mais tempo
Nem toda mudança envolve trocar de profissão. Às vezes, a forma de trabalhar se transforma. Galdino, taxista no Rio de Janeiro, encontrou equilíbrio ao dividir o ano entre a cidade grande e a Paraíba, onde reencontra a família e as raízes. Trabalha cerca de oito meses por ano e passa até quatro meses na sombra e na água fresca. 'Dessa forma eu consigo ter uma vida boa, do meu jeito, mas boa', diz. Hoje, orgulha-se da trajetória construída com disciplina e economia. 'Não precisa ter muito dinheiro. Um pouco, bem administrado, dá certo', ensina.
Aposentadoria não é sinônimo de parar
Se para muitos mudar é escolha, para outros é necessidade. Pedro Rodrigues Santos, pastor, taxista e ex-cobrador, enfrentou uma tristeza profunda ao se aposentar. O reencontro com o propósito veio por meio do aprendizado. Incentivado pela esposa, Pedro fez cursos gratuitos — de elétrica a energias renováveis, passando por edição de vídeo. 'Eu não vivo para trabalhar. Eu trabalho para viver. E viver bem', afirma.
Experiência como valor
O educador canadense Riley Moynes define quatro fases da aposentadoria: férias, vazio, experimentação e reencontro. Nessa última etapa, muitos descobrem novas formas de trabalhar, ensinar ou ajudar. Depois de se aposentar formalmente, o engenheiro Dario Gramorelli decidiu continuar ativo como voluntário e profissional. Atua em projetos sociais no sertão nordestino e participa de iniciativas para enfrentar o chamado 'apagão de competências' na engenharia brasileira. 'Temos muitos engenheiros experientes sendo deixados de lado pelo etarismo', alerta. Para ele, dividir conhecimento é uma transformação dupla: de quem recebe e de quem compartilha. 'Meu maior patrimônio hoje é o tempo.'
Mudar de forma consciente
Em comum, todas as histórias trazem o mesmo recado: mudar de carreira é um processo, não um salto no escuro. Com planejamento, estudo, formalização e persistência, buscar novos rumos pode deixar de ser um desejo distante e se transformar em uma virada possível — e, para muitos, necessária. 'Eu acho que a vida é curta demais para ficar em algo que você não está feliz. Mas tem que fazer com consciência', resume a confeiteira Diva.



