O cenário de otimismo que marcou o mercado de trabalho europeu no pós-pandemia deu lugar a um período de cautela e incerteza. A combinação de pressões industriais, desaceleração econômica e o avanço da inteligência artificial está remodelando as relações profissionais e gerando insegurança entre os trabalhadores.
Do boom pós-pandemia ao resfriamento do mercado
Durante e logo após a crise da covid-19, os trabalhadores europeus viveram um momento de rara vantagem. Programas governamentais de apoio, a popularização do trabalho remoto e uma escassez global de mão de obra, simbolizada pela "Grande Demissão", empurraram os salários para cima e deram mais poder de escolha aos profissionais. Uma pesquisa de 2022 da McKinsey revelou que um terço dos trabalhadores do continente considerava mudar de emprego em três a seis meses.
No entanto, o vento mudou de direção. Angelika Reich, consultora da Spencer Stuart, explica que o mercado "esfriou". Menos vagas e um clima econômico mais desafiador tornaram os funcionários mais hesitantes em buscar novas oportunidades. O Banco Central Europeu (BCE) projeta que o crescimento do emprego na zona do euro, que reúne 21 países, desacelerará para 0,6% este ano, ante 0,7% em 2025.
Embora a diferença percentual pareça pequena, cada 0,1 ponto a menos representa cerca de 163 mil novos empregos não criados. Em contraste, há três anos, a região gerava aproximadamente 2,76 milhões de novas vagas, com um crescimento robusto de 1,7%.
A "Grande Hesitação" e os problemas industriais
O enfraquecimento do mercado deu origem a novos termos, como a "Grande Hesitação", que descreve a relutância das empresas em contratar e a cautela dos trabalhadores em deixar empregos estáveis, mesmo que estressantes. Práticas como o "career cushioning" – a preparação discreta de um plano B profissional – ganham força.
Na Alemanha, mais de uma em cada três empresas planeja cortar postos de trabalho em 2024, segundo o instituto IW. O desemprego no país pode subir para 7,8%. Situação similar é observada no Reino Unido, Polônia, Romênia e República Tcheca, onde as taxas de desocupação também avançam.
O coração industrial europeu é o mais afetado. Altos custos de energia, demanda fraca por exportações e concorrência acirrada, especialmente da China, levaram à eliminação de mais de 120 mil empregos na Alemanha, concentrados nos setores automotivo, de máquinas, metalúrgico e têxtil. Essa pressão arrastou o Índice de Gerentes de Compras (PMI) da indústria da zona do euro para 48,8 em dezembro, indicando contração.
Bettina Schaller Bossert, da World Employment Confederation, alerta que as notícias negativas sobre demissões estão prejudicando a imagem de setores tradicionais. "Muitos jovens recém-formados acreditam que não há futuro no setor automotivo", afirma.
A sombra da Inteligência Artificial e um futuro incerto
Além das crises cíclicas, uma transformação mais profunda preocupa os europeus: a inteligência artificial. Um estudo da consultoria EY, publicado em julho, constatou que um quarto dos trabalhadores europeus teme que a IA coloque seus empregos em risco. Além disso, 74% acreditam que as empresas precisarão de menos funcionários devido à tecnologia.
O Instituto de Pesquisa de Emprego (IAB) da Alemanha projetou que, até 2040, cerca de 1,6 milhão de empregos no país poderiam ser remodelados ou perdidos para a IA. A Agência Federal do Trabalho alemã prevê que cargos altamente qualificados serão desproporcionalmente impactados, embora o setor de tecnologia possa criar aproximadamente 110 mil novas vagas.
Especialistas divergem sobre o impacto final. Enzo Webe, do IAB, acredita que a IA levará a uma "transformação" do mercado, mas não necessariamente a uma oferta menor de trabalho. John Springford, do Centro para a Reforma Europeia, argumenta que a automação pode libertar os humanos de tarefas árduas, mas o trabalho profissional e intelectual não diminuirá.
Para Anthony Klotz, professor que cunhou o termo "Grande Demissão", momentos de ruptura tecnológica, como o avanço acelerado da IA, podem servir como catalisadores para que os trabalhadores reavaliem suas carreiras de forma proativa, antes que as mudanças os alcancem. O futuro do trabalho na Europa, portanto, será moldado não apenas pela economia, mas pela forma como a sociedade assimila e gerencia a revolução da inteligência artificial.