Senado aprova projeto que criminaliza misoginia como crime equivalente ao racismo
Senado aprova criminalização da misoginia como crime de racismo

Senado Federal aprova criminalização da misoginia como crime equivalente ao racismo

O Senado Federal aprovou, nesta terça-feira (24), o texto base de um projeto de lei que criminaliza a prática da misoginia, equiparando-a ao crime de racismo. A proposta, que agora segue para análise da Câmara dos Deputados, inclui a infração na Lei do Racismo, inserindo-a entre os crimes de discriminação ou preconceito. A iniciativa representa um marco na luta pelos direitos das mulheres no Brasil, buscando combater uma forma de violência estrutural que afeta milhões de brasileiras.

Definição e penalidades para o crime de misoginia

A misoginia é definida, no projeto, como o sentimento de repulsa, ódio ou aversão às mulheres, um comportamento social que resulta na objetificação feminina e pode culminar em casos extremos de feminicídio. Segundo a proposta, quem praticar ou induzir atos misóginos estará sujeito às mesmas punições aplicadas no contexto de preconceito por raça, cor, etnia, religião ou nacionalidade.

A pena prevista será de reclusão de um a três anos e multa, com regime fechado no início do cumprimento. Para casos de injúria – ofensa à honra e dignidade – derivada de misoginia, a punição será mais severa: reclusão de dois a cinco anos e multa. A pena aumenta em 50% se a injúria for cometida por duas ou mais pessoas, uma disposição que estará descrita na Lei do Racismo.

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Vale destacar que, atualmente, o Código Penal estabelece pena-base para injúria de detenção de um a seis meses ou multa, significativamente menor. A proposta também inclui no Código Penal que, se crimes contra a honra forem cometidos contra mulher no contexto de violência doméstica e familiar, a pena será dobrada. Além da injúria, outros crimes contra a honra, como calúnia e difamação, serão abrangidos.

Autoria e contexto legislativo

A matéria é de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) e foi relatada no Senado por Soraya Thronicke (Podemos-MS). O projeto deixa expresso na lei que o juiz deve considerar como discriminatória "qualquer atitude ou tratamento dado à pessoa ou a grupos minoritários que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, e que usualmente não se dispensaria a outros grupos em razão da cor, etnia, religião, procedência nacional ou condição de mulher".

Esta aprovação ocorre em um contexto onde o Congresso Nacional analisou, apenas em março, 16 propostas relacionadas aos direitos das mulheres. Desse total, apenas seis foram encaminhadas para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e devem virar lei. Recentemente, o Senado também aprovou proposta que obriga a polícia a expedir uso de tornozeleira eletrônica para agressores de mulheres em casos de risco, com decisão judicial em 24 horas.

Cenário alarmante de feminicídios no Brasil

A necessidade de criminalizar a misoginia ganha urgência diante dos dados alarmantes de violência contra a mulher. Em 2025, o número de feminicídios bateu recorde no Brasil, com 1.470 casos registrados de janeiro a dezembro, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Isso equivale a quatro mulheres mortas por dia no ano passado, um cenário que evidencia a gravidade da situação.

Embora a Lei do Feminicídio e a Lei Maria da Penha já abranjam comportamentos abusivos contra mulheres, nenhuma delas detém o termo "misoginia" como crime específico. A nova proposta busca preencher essa lacuna legal, oferecendo uma ferramenta adicional para combater a discriminação de gênero em suas diversas manifestações.

Exemplos de situações misóginas

O Ministério das Mulheres tem uma cartilha que ilustra frases ou situações típicas de misoginia, ajudando a identificar o comportamento. Entre os exemplos estão:

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  • Quando a mulher é agredida pelo marido ou namorado e ainda ouve de amigos e familiares que a culpa é dela.
  • Quando a mulher tem uma ideia rejeitada, para vê-la aproveitada por um homem, que alega ser de sua autoria.
  • Frases como "Não precisa reagir assim, você está de TPM?" ou "O boato é que ela recebeu esse aumento porque está saindo com o chefe".

A criminalização da misoginia como equivalente ao racismo representa um passo significativo na proteção dos direitos das mulheres, alinhando-se a esforços internacionais para erradicar a discriminação de gênero. A proposta agora aguarda tramitação na Câmara dos Deputados, onde será debatida e poderá sofrer ajustes antes de possível sanção presidencial.