Padre denunciado por intolerância religiosa contra Preta Gil enfrenta processo cível da família Gil
Padre denunciado por intolerância religiosa enfrenta processo da família Gil

Família de Gilberto Gil mantém processo cível contra padre por declarações sobre Preta Gil

A família do cantor Gilberto Gil continua com um processo por danos morais contra o padre Danilo César, da paróquia de Areial, no Agreste da Paraíba. O religioso foi denunciado por intolerância religiosa após fazer declarações sobre Preta Gil durante uma homília transmitida ao vivo no ano passado.

Detalhes do processo cível

O processo cível, aberto em 5 de novembro na 41ª Vara Cível da Comarca do Rio de Janeiro, está sendo conduzido pelo juiz Victor Agustin Cunha Jaccoud Diz Torres. A ação pede o pagamento de R$ 370 mil por danos morais e atualmente encontra-se na fase de defesa do padre.

A próxima etapa será a réplica da família de Gilberto Gil, ou seja, a manifestação dos autores para rebater os argumentos apresentados pela defesa. O advogado do padre na área cível, Rodrigo Rabello, confirmou que a defesa já foi protocolada.

Divergência entre acordo criminal e defesa cível

Os advogados da família Gil, Layanna Piau e Fredie Didier, alegam que Gilberto Gil busca um reconhecimento do padre, mesmo após um acordo com o Ministério Público Federal na esfera criminal. Segundo eles, o conteúdo da defesa apresentada no processo cível demonstra divergência em relação ao que foi assumido anteriormente no acordo com o MPF.

Para firmar o acordo na área criminal, o padre precisou assinar um termo de confissão de conduta ilícita. No entanto, na defesa apresentada na ação cível, ele não reconheceu responsabilidade pelos fatos e afirmou que apenas manifestava sua própria fé quando associou a prática de religiões de matriz africana à morte de Preta Gil.

Fredie Didier destacou que o acordo juridicamente firmado pelo padre requer o reconhecimento da conduta e que, por ter sido homologado por um juiz, qualquer manifestação posterior com posição contrária pode ser interpretada como quebra de decisão judicial.

Posição da defesa do padre

A defesa do padre afirmou que os processos não têm relação e que o acordo com o MPF não previu "assumir qualquer prática de crime". Segundo eles, no acordo de não persecução penal, o padre somente assumiu o que era público e notório: que proferiu as falas que foram gravadas.

"O texto do ANPP é claro nesse sentido. Ademais, os objetos centrais do procedimento criminal e do processo civil são diferentes. De sorte que, em nosso entendimento, no processo civil, não há como se estabelecer relação entre ambos os procedimentos", disse a defesa.

Acordo criminal e suas exigências

Em fevereiro, o padre fechou um acordo de não persecução penal com o Ministério Público Federal da Paraíba para não responder criminalmente. Como parte do acordo, ele se comprometeu com várias condutas:

  • Participação em ato inter-religioso
  • Leitura e produção de resenhas manuscritas das obras A Justiça e a Mulher Negra (Lívia Santana) e Cultos Afro-Paraibanos (Valdir Lima)
  • Produção de resenha manuscrita do documentário Obatalá, o Pai da Criação
  • Cumprimento de 60 horas de cursos sobre intolerância religiosa
  • Pagamento de R$ 4.863,00 para a Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes (AACADE)

O ato inter-religioso foi realizado em 6 de fevereiro, mas o padre Danilo César não quis se pronunciar durante o evento.

As declarações que originaram o caso

O caso ocorreu no dia 27 de julho do ano passado. Durante a homilia transmitida ao vivo pelo YouTube da paróquia de São José, em Areial, o padre citou a morte da cantora Preta Gil, vítima de câncer colorretal, associando a fé dela em religiões de matriz afro-indígenas à morte e ao sofrimento.

"Eu peço saúde, mas não alcanço saúde, é porque Deus sabe o que faz, ele sabe o que é melhor para você, que a morte é melhor para você. Como é o nome do pai de Preta Gil? Gilberto Gil fez uma oração aos orixás, cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil? Já enterraram?", disse o padre.

As declarações com cunho de intolerância religiosa também foram dirigidas aos fiéis presentes. O padre se referiu a religiões de matriz afro-indígenas como "coisas ocultas" e declarou que desejava "que o diabo levasse" quem procurar essa prática.

A fala foi considerada preconceituosa pela Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria, da região de Areial. O presidente da instituição, Rafael Generiano, fez um boletim de ocorrência contra as falas do padre por intolerância religiosa na época.

O vídeo da missa foi retirado do ar após grande repercussão nas redes sociais, mas o caso continua gerando desdobramentos jurídicos tanto na esfera criminal quanto na cível.