A busca por uma vida melhor levou Nívia Estevam, de 27 anos, a cruzar o Atlântico sozinha em 2018, deixando Belém do Pará para se estabelecer em Portugal. Mãe desde os 17, seu maior objetivo sempre foi oferecer estabilidade e segurança ao filho, José Lucas, hoje com 10 anos. No entanto, o sonho de um futuro tranquilo se transformou em um pesadelo em novembro de 2025, quando o menino se tornou vítima de um grave ataque movido por xenofobia na escola onde estudava, no norte do país.
Da violência verbal à agressão física extrema
José Lucas já era alvo de bullying sistemático por ser brasileiro. As provocações, que iam de "você não sabe falar português" a agressões físicas menores, eram uma rotina conhecida. Nívia chegou a abordar a professora responsável, mas a resposta foi de descaso, classificando as queixas como "mal-entendido" ou invenções infantis. A situação escalou quando o menino chegou em casa com marcas no pescoço, após ser pressionado contra a parede. Mesmo assim, a escola não tomou providências.
O episódio mais violento ocorreu no banheiro da instituição. Um grupo de crianças forçou a porta, prendendo a mão esquerda de José Lucas. Apesar dos gritos e suplicas do garoto, ninguém interveio. A porta foi esmagada contra seus dedos com tanta força que causou uma lesão profunda. Ferido e sangrando muito, o menino conseguiu escapar rastejando por baixo da porta para pedir ajuda.
Negligência institucional e a batalha por justiça
A escola, ao ligar para Nívia, minimizou o fato, relatando um simples "acidente". Ao chegar, a mãe encontrou o filho com a mão enfaixada e a roupa ensanguentada, gritando de dor. No hospital, a realidade brutal veio à tona: dois dedos estavam gravemente comprometidos, exigindo uma cirurgia de três horas. José Lucas perdeu as duas digitais e teve um dos dedos recolocado.
Foi uma enfermeira no hospital quem alertou Nívia de que se tratava de um caso de polícia e acionou uma assistente social. No entanto, ao tentar formalizar a denúncia, a mãe enfrentou novo descaso. Um agente policial declarou que "para vocês, brasileiros, tudo é xenofobia" e se recusou a registrar uma queixa-crime, desviando o caso para uma via que impossibilitava a ação do Ministério Público.
Desesperada, Nívia compartilhou a história nas redes sociais. A repercussão foi imensa, gerando uma onda de solidariedade. Uma advogada se voluntariou e montou uma equipe com mais de vinte especialistas para buscar a responsabilização de todos os envolvidos, da escola às autoridades que falharam.
Cicatrizes que não se apagam e um futuro incerto
Para tentar um recomeço, a família se mudou para o sul de Portugal, cidade da sogra de Nívia. José Lucas, que era uma criança alegre, tornou-se retraído e agora faz acompanhamento psicológico. O retorno às aulas, em uma nova escola, foi marcado por terror, mas ele tem conseguido, aos poucos, fazer novos amigos.
O depoimento do menino à justiça está marcado para o fim de janeiro de 2026, um momento que a família encara com apreensão, pois revisitar o trauma o deixa agitado e sem dormir. A escola onde o ataque ocorreu abriu uma investigação interna.
Nívia é enfática ao afirmar que a intolerância contra brasileiros em Portugal é constante. Ela acredita que a mudança só virá com políticas públicas de inclusão, começando pela educação, e que a Embaixada do Brasil deve pressionar por transformações. O medo de que algo semelhante se repita é tão grande que ela planeja deixar o país em um futuro próximo, seja para tentar outra nação europeia, seja para voltar ao Brasil. As cicatrizes, físicas e psicológicas, no entanto, são permanentes. "Elas não se apagam", conclui.