Família Gil aponta contradição em defesa de padre acusado de intolerância religiosa
Família Gil aponta contradição em defesa de padre

Família Gil identifica divergência em posicionamentos do padre após acordo com Ministério Público

A família da cantora Preta Gil e do músico Gilberto Gil identificou uma aparente contradição na defesa do padre Danilo César, da paróquia de Areial, na Paraíba, denunciado por intolerância religiosa por declarações proferidas durante uma missa transmitida ao vivo no ano passado.

Acordo criminal versus processo cível

Os advogados da família, Layanne Piau e Fredie Didier, destacam que, após firmar um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com o Ministério Público Federal (MPF) – homologado pela Justiça Federal –, o clérigo apresentou uma versão distinta na esfera cível. No processo por danos morais, o padre afirmou que apenas expressava sua própria fé ao associar a morte de Preta Gil às práticas de religiões de matriz africana.

No acordo com o MPF, o padre assinou um termo de confissão de conduta ilícita e se comprometeu com uma série de ações, incluindo a participação em um ato religioso de conscientização. Para os advogados da família Gil, essa diferença de narrativa pode configurar uma quebra de decisão judicial, uma vez que o acordo foi validado por um magistrado.

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Posicionamentos divergentes das partes

"Embora se trate de processos em esferas distintas, cível e criminal, um pode ter relação com o outro, na medida em que surgiram do mesmo fato", argumentou Fredie Didier, que não informou se irá recorrer do acordo.

Em contrapartida, a defesa do padre, representada pelo advogado Rodrigo Rabello, sustenta que os processos não possuem relação direta e que o acordo com o MPF não previu a admissão de qualquer prática criminosa. "No ANPP do procedimento criminal, em momento algum o padre assumiu qualquer prática de crime, tampouco de dolo. Ele somente assumiu o que era público e notório: que proferiu aquelas falas que foram gravadas", afirmou Rabello.

Detalhes do acordo e evento inter-religioso

Conforme estabelecido no acordo, o ato inter-religioso foi realizado em 6 de fevereiro, com a participação remota do próprio Gilberto Gil e da madrasta de Preta Gil. Durante o evento, o padre Danilo César optou por não se pronunciar.

As obrigações assumidas pelo padre no acordo incluem:

  1. Leitura e produção de resenhas manuscritas das obras "A Justiça e a Mulher Negra" (Lívia Santana) e "Cultos Afro-Paraibanos" (Valdir Lima);
  2. Produção de resenha manuscrita do documentário "Obatalá, o Pai da Criação";
  3. Cumprimento de 60 horas de cursos sobre intolerância religiosa, com certificados válidos;
  4. Pagamento de R$ 4.863,00 à Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes (AACADE);
  5. Participação obrigatória em ato inter-religioso com presença de diferentes religiões e familiares de Gilberto Gil.

Contexto das declarações polêmicas

O caso remonta a 27 de julho do ano passado, quando, durante uma homilia transmitida ao vivo pelo YouTube da paróquia de São José, em Areial, o padre citou a morte de Preta Gil – vítima de câncer colorretal – associando-a à fé da cantora em religiões de matriz afro-indígenas. "Cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil? Já enterraram?", questionou o clérigo.

Em suas declarações, o padre também se referiu a essas religiões como "coisas ocultas" e expressou o desejo de que "o diabo levasse" quem as procurasse. O vídeo foi retirado do ar após grande repercussão nas redes sociais.

A Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria, da região de Areial, considerou as falas preconceituosas, levando o presidente da instituição, Rafael Generiano, a registrar um boletim de ocorrência por intolerância religiosa.

Enquanto o acordo criminal avança, a família de Preta Gil mantém o processo cível por danos morais, destacando a aparente inconsistência nas defesas apresentadas pelo padre nas diferentes esferas jurídicas.

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