O Posto de Triagem (PTrig) da Operação Acolhida, no bairro 13 de Setembro, em Boa Vista (RR), apresentou uma longa fila de migrantes venezuelanos nesta segunda-feira, 5 de fevereiro. O movimento ocorre logo após os graves eventos na Venezuela, onde os Estados Unidos lançaram um ataque no sábado, 3 de fevereiro, com explosões em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira, resultando na captura e transferência para os EUA do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa.
Movimentação e atendimento no coração de Roraima
Dentro da instalação, dezenas de pessoas aguardavam para dar entrada ou atualizar documentos migratórios, como o protocolo da Polícia Federal, essencial para acessar serviços básicos e oportunidades de trabalho no Brasil. A reportagem do g1 registrou as cenas. Questionado sobre a fila, o tenente-coronel Manoel Magno Lopes, chefe da Seção de Comunicação Estratégica da Operação Acolhida, afirmou que esse fluxo é considerado normal para uma segunda-feira, já que não há atendimentos nos fins de semana. Ele classificou o movimento atual como "baixo".
Em coletiva de imprensa, o comandante da 1ª Brigada de Infantaria de Selva de Roraima, Roberto Pereira Angrizani, se recusou a comentar o assunto, direcionando todas as perguntas sobre a Operação Acolhida para a própria operação.
Histórias de esperança e receio frente à crise
Entre os que aguardavam atendimento estava a cabeleireira Aranza Velasquez, de 33 anos, natural de Ciudad Bolívar. Ela chegou a Boa Vista no início de dezembro e estava no local para regularizar sua documentação. Sobre o ataque americano à Venezuela, Aranza expressou sentimentos conflitantes. "São sentimentos encontrados porque, na verdade, como venezuelana, eu não quero mais violência. Mas, para uma construção, às vezes vem uma destruição primeiro. Acho que foi algo necessário, apesar de tudo o que aconteceu, do bombardeio", declarou, classificando o momento como de "mudança".
Já Manuel Garcia, de 69 anos, vendedor ambulante de Maturín, aproveita a movimentação para garantir sua renda, comercializando pastas para documentos em frente ao PTrig, enquanto também aguarda a conclusão de seu processo. "Estou agradecido a Deus e aos brasileiros, porque aqui nos atendem bem", disse. Sobre a situação em seu país, demonstrou tristeza: "Não me sinto bem com isso. Tenho minha família lá, e dói ver o país sendo banhado em sangue".
Lilibe Bassante, de 52 anos, também de Ciudad Bolívar, já vive em Boa Vista há cerca de seis meses e retornou ao posto para renovar documentos. Ela veio com a família e não trabalha por ter um filho com deficiência de 24 anos. Sobre o futuro da Venezuela, ela mantém a esperança: "Que seja feita a vontade de Deus. A Venezuela é um país rico... mas o povo sofreu muito. Esperamos que agora as coisas possam melhorar".
Fronteira em Pacaraima também é reaberta
O Exército também reabriu na manhã desta segunda-feira os atendimentos no posto de triagem da Operação Acolhida em Pacaraima, cidade no Norte de Roraima que faz fronteira direta com a Venezuela. O controle migratório na Polícia Federal no local também voltou a funcionar. Pacaraima é o primeiro território brasileiro a sentir os reflexos das crises venezuelanas.
As autoridades monitoraram a movimentação ao longo do dia para avaliar um possível aumento no fluxo. Até às 9h (horário local), o movimento era considerado tranquilo, sem longas filas. Cerca de 200 agentes das Forças Armadas atuam na região de fronteira. Em todo o estado de Roraima, o efetivo militar é de aproximadamente 2 mil homens, número que sobe para 10 mil na região da Amazônia.
A Operação Acolhida é uma força-tarefa federal criada em 2018, com apoio de organizações internacionais, responsável pelo ordenamento da fronteira, acolhimento e interiorização de migrantes venezuelanos no Brasil. O PTrig em Boa Vista é o local onde recém-chegados solicitam refúgio, residência temporária, emissão de CPF, carteira de trabalho e vacinação.