Após um ano de 2025 considerado excepcional para o mercado acionário, os investidores adentram 2026 com um cenário marcado pela expectativa de maior volatilidade. Em análise exclusiva, o sócio da Valor Investimentos, Daniel Teles, traçou um panorama dos melhores investimentos para este ano, destacando os desafios e oportunidades em meio a um ambiente de juros elevados e incertezas políticas.
Bolsa "barata" versus riscos nacionais
Daniel Teles apresenta um ponto provocativo: mesmo após fortes altas, a Bolsa brasileira ainda pode ser considerada "barata" sob certas perspectivas. Ele lembra que, em dólar, o patamar do Ibovespa permanece distante de níveis históricos anteriores. Além disso, ao observar múltiplos como preço/lucro, setores como bancos, energia, petróleo e mineração apresentam empresas sólidas, geradoras de caixa, negociadas com descontos em relação a mercados desenvolvidos.
No entanto, esse desconto tem uma explicação clara. "O problema é que esse desconto tem nome e sobrenome: dívida pública, desconfiança fiscal e incerteza política", afirma o especialista. O ano eleitoral tende a influenciar os preços dos ativos, e a percepção do investidor estrangeiro será decisiva. Para Teles, o Brasil só voltará a ser o "queridinho" dos emergentes se o mercado enxergar uma direção mais clara e crível para o controle do risco fiscal. A evolução do cenário político poderá "destravar" uma nova rodada de valorização ou, se piorar, acentuar correções.
O básico que funciona: Renda Fixa no centro
Com a taxa Selic mantida em 15% ao ano, a renda fixa continua sendo uma opção super atrativa para 2026. Daniel Teles coloca o Tesouro Direto como a vitrine mais óbvia dos juros altos. Ele vai além e sugere que os investidores podem diversificar dentro da própria renda fixa, ultrapassando o chamado "trio pop" (poupança, CDB e fundos simples).
Entre as alternativas, ele cita:
- LCI e LCA: Títulos isentos de Imposto de Renda para pessoa física, com destinação de recursos para os setores imobiliário e agropecuário.
- Crédito Privado: Incluindo CRI, CRA e debêntures, que oferecem diferentes perfis de risco e retorno.
"A regra de ouro, sempre, é respeitar o seu perfil de risco e buscar diversificação", reforça Teles.
A virada do ciclo e ativos de proteção
A mudança de cenário, na avaliação do especialista, virá quando o ciclo de queda dos juros finalmente engrenar. Nesse momento, ocorrerá uma migração natural de recursos para ativos que se beneficiam de juros mais baixos, como ações, fundos imobiliários e fundos multimercados.
Para momentos de turbulência, Daniel Teles destaca o papel de ativos de proteção. Ouro e prata são citados como reservas de valor tradicionais em períodos de tensão geopolítica, com acesso facilitado por meio de fundos ou ETFs. Sobre o mercado de criptomoedas, ele reconhece a tese do "ouro digital", mas emite um alerta contundente: é um ativo de alta volatilidade, inadequado para formar a base do patrimônio. Sua alocação deve ser pequena, com uma tese de longo prazo clara, e nunca confundida com apostas de curto prazo.
Por fim, o analista chama a atenção para um risco global que afeta todas as carteiras: a possível formação de uma bolha no setor de Inteligência Artificial nos Estados Unidos. Embora a adoção da IA seja irreversível, o mercado ainda busca responder se os investimentos astronômicos em infraestrutura e datacenters serão compensados por demanda e lucratividade reais. Uma correção forte nesse segmento nos EUA teria efeitos em cascata em mercados emergentes como o Brasil, devido à atuação dos mesmos investidores institucionais.
Diante de um ano prometendo volatilidade e um excesso de informações, Daniel Teles encerra reforçando a regra mais essencial (e muitas vezes esquecida): diversificação e um filtro crítico sobre as informações recebidas, especialmente quando influenciadores digitais e dicas rápidas competem com análises fundamentadas.