Estudo revela: mulheres desempregadas trabalham três vezes mais em casa que homens
Mulheres desempregadas trabalham 3x mais em casa que homens

Mulheres desempregadas trabalham três vezes mais em casa do que homens, revela estudo da USP

Uma pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia da Desigualdade (Made) da Universidade de São Paulo (USP) revela dados alarmantes sobre a distribuição desigual do trabalho doméstico entre homens e mulheres no Brasil. O estudo, intitulado "Escala 7×0" em referência à jornada invisível feminina sem dias de descanso, mostra que mesmo quando ambos estão desempregados, as mulheres continuam dedicando muito mais tempo aos cuidados da casa e da família.

Desigualdade que persiste mesmo sem emprego

Os números são contundentes: no grupo das pessoas sem nenhum emprego, as mulheres dedicam em média 26,7 horas semanais a tarefas domésticas, enquanto os homens gastam apenas 9 horas por semana. Isso significa que elas trabalham quase três vezes mais em casa do que eles, mesmo quando ambos têm o mesmo tempo livre disponível.

Traduzindo para o dia a dia, os homens desempregados dedicam aproximadamente 1 hora e 17 minutos diários aos cuidados domésticos, considerando os sete dias da semana. Já as mulheres desempregadas passam quase 4 horas por dia – precisamente 3 horas e 48 minutos – realizando essas mesmas atividades.

Padrão que se mantém em todas as situações

A pesquisa analisou diferentes perfis de jornada de trabalho e descobriu que a desigualdade persiste independentemente da carga horária externa:

  • Entre quem trabalha mais de 40 horas semanais, as mulheres dedicam 19,5 horas a tarefas domésticas, enquanto os homens gastam apenas 8,7 horas
  • Mesmo quando homens e mulheres têm jornadas remuneradas similares, a carga doméstica continua significativamente maior para elas
  • Quanto menor a jornada de trabalho externa da mulher, maior seu tempo dedicado ao trabalho da casa, que ultrapassa as 20 horas semanais

Jornada total muito maior para as mulheres

Quando se somam as horas de trabalho remunerado e não remunerado, a disparidade fica ainda mais evidente:

  1. Na média geral, os homens cumprem 41,4 horas de trabalho remunerado por semana, enquanto as mulheres têm 36,7 horas
  2. Porém, elas dedicam 21,3 horas semanais a trabalhos domésticos, ante apenas 8,8 horas entre os homens
  3. O resultado é que as mulheres trabalham 58,1 horas semanais no total, enquanto os homens trabalham 50,3 horas – uma diferença de quase 8 horas a mais para elas

Consequências para a vida profissional feminina

As pesquisadoras Clara Saliba, Luiza Pires, Débora Nunes e Laís Assenço Paulino, autoras do estudo, destacam que "para as mulheres, uma menor jornada de trabalho remunerado é compensada com a elevação das horas despendidas em trabalho doméstico e de cuidados". Já para os homens, não há diferença significativa na média de horas dedicadas ao cuidado não remunerado entre as diferentes faixas de jornada remunerada.

O relatório aponta ainda que, considerando a jornada diária padrão de 8 horas prevista na CLT, as mulheres que trabalham mais de 40 horas semanais e ainda dedicam quase 20 horas a tarefas domésticas teriam uma carga equivalente a 8 dias de trabalho por semana. "Para essas mulheres, falta um dia na semana para que sua carga total de trabalho possa ser realizada", conclui o estudo.

A pesquisa foi realizada com base nos dados da Pnad Contínua, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, e contabilizou tanto o cuidado direto (auxílio na alimentação, movimentação ou higiene de pessoas) quanto o cuidado indireto (tarefas domésticas como cozinhar, limpar ou fazer manutenção). Os resultados reforçam a necessidade urgente de discussões sobre divisão mais equitativa das responsabilidades domésticas no país.