Fim da escala 6x1 avança no Congresso com quatro propostas distintas em tramitação
Fim da escala 6x1 avança no Congresso com quatro propostas

Fim da escala 6x1 se torna prioridade na agenda trabalhista do Brasil

A discussão sobre o fim da escala 6x1 — seis dias de trabalho para um de descanso — deixou de ser um debate pontual para ocupar o centro das atenções na política trabalhista brasileira. O tema ganhou força expressiva no Congresso Nacional e atualmente avança por quatro frentes legislativas distintas, com propostas que seguem caminhos diferentes. No cerne da questão, o debate coloca em lados opostos a pressão por mais tempo livre para os trabalhadores e as preocupações legítimas com os efeitos econômicos que tais mudanças podem provocar.

Quatro propostas em tramitação simultânea

Na prática, nunca antes o fim da escala 6x1 foi discutido de forma tão ampla e conjunta no Brasil. Na Câmara dos Deputados, dois textos deram um passo importante na última quarta-feira (15). A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) emitiu parecer favorável à tramitação da PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), e da proposta apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). A votação, contudo, foi adiada após um pedido de vista da oposição, transferindo a decisão final da comissão para os próximos dias.

Paralelamente, o governo federal optou por seguir outro caminho. Na terça-feira (14), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enviou ao Congresso um projeto de lei, com urgência constitucional, que também prevê o fim da escala 6x1. A estratégia do Planalto é testar a viabilidade política da mudança através de um trâmite legislativo mais acelerado.

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No Senado Federal, a discussão encontra-se em estágio mais avançado. A PEC 148/2015, do senador Paulo Paim (PT-RS), foi aprovada pela CCJ da Casa em dezembro do ano passado e aguarda análise do plenário. Este é o texto mais adiantado do ponto de vista legislativo. Portanto, o Congresso analisa simultaneamente quatro propostas, cada uma com trajetória própria e diferentes níveis de progresso.

O que cada texto propõe concretamente

A proposta mais avançada até o momento é a PEC 148/2015. "É a [PEC] mais antiga em tramitação sobre o tema e prevê a redução gradual da jornada até o limite de 36 horas semanais", afirma Paulo Renato Paim, autor da proposta. O texto estabelece uma redução gradual da jornada de trabalho: no primeiro ano após promulgação, a carga semanal cairia de 44 horas para 40 horas. Posteriormente, haveria reduções anuais de uma hora até alcançar o limite de 36 horas semanais.

A proposta formaliza a escala 5x2, com dois dias de descanso, e estabelece a proibição de redução salarial durante toda a transição. Aprovada na CCJ do Senado, a PEC segue agora para o plenário, onde será votada em dois turnos e precisará de 49 votos favoráveis em cada um. Se aprovada, o texto seguirá para a Câmara, passando também por dois turnos antes de possível promulgação.

Já na Câmara, a proposta mais abrangente é a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton. O texto propõe a adoção da escala 4x3, com jornada máxima de 36 horas semanais, implementada em até 360 dias. A medida aproxima-se de experiências internacionais recentes, mas enfrenta maior resistência política.

A PEC do deputado Reginaldo Lopes segue na mesma direção quanto à carga horária final, mas prevê uma transição mais longa — até 10 anos — com objetivo de diminuir eventuais impactos sobre empresas, especialmente em setores mais intensivos em mão de obra.

Por fim, o projeto de lei do governo federal adota uma alternativa intermediária. O texto fixa a jornada em 40 horas semanais, com escala 5x2, e garante manutenção dos salários. Como altera a CLT, o projeto exige apenas maioria simples para aprovação. Além disso, foi enviado com urgência constitucional, limitando a até 45 dias o prazo máximo de tramitação em cada Casa Legislativa.

Divergências e impactos econômicos em debate

O avanço das propostas ocorre em meio a um debate que também se intensificou fora do Congresso. Mesmo entre apoiadores do fim da escala 6x1, há quem defenda mudanças graduais, negociação coletiva e medidas de compensação, principalmente para micro e pequenas empresas.

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Para sindicatos e movimentos sociais, o fim da escala 6x1 é uma reivindicação antiga. A avaliação é de que jornadas extensas afetam a saúde física e mental, aumentam o risco de acidentes e reduzem o tempo de descanso, sobretudo entre mulheres e trabalhadores de baixa renda.

Por outro lado, representantes do setor produtivo reforçam preocupações com impactos econômicos. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), em parceria com a Tendências Consultoria, indica que a redução da jornada de 44 para 36 horas, sem aumento proporcional de produtividade, pode levar a uma queda de até 3,7% do PIB no primeiro ano.

As simulações também apontam que cerca de 1,5 milhão de trabalhadores formais poderiam enfrentar risco de demissão ou migração para a informalidade. "O custo com pessoal representa um dos principais componentes da estrutura de custos das empresas", afirma Guilherme Hakme, diretor da Fiep.

No comércio, estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que adaptação a jornadas menores pode elevar folha salarial em cerca de 21%, com parte desse custo tendendo a ser repassada aos preços. No turismo, setor que depende da escala 6x1 para operar aos fins de semana, impacto esperado recai sobre preços e demanda.

Para economistas, o ponto central da discussão é a produtividade. Segundo André Portela, da FGV, redução da jornada de 44 para 36 horas, com manutenção dos salários, elevaria custo da hora trabalhada em cerca de 22%. Diante desse cenário, empresas tenderiam a adotar diferentes estratégias, como repassar custos, investir em automação ou reorganizar equipes.

A avaliação de especialistas é que mudanças desse porte exigem planejamento cuidadoso. Sem isso, há risco de efeitos como aumento da informalidade, acúmulo de empregos e maior instabilidade econômica, especialmente em caso de implementação rápida.