Fechamento de supermercados aos domingos no ES transforma rotina de 70 mil trabalhadores
Fechamento de supermercados aos domingos no ES muda rotina de trabalhadores

Fechamento de supermercados aos domingos no ES transforma rotina de 70 mil trabalhadores

O fechamento dos supermercados aos domingos no Espírito Santo tem provocado mudanças profundas na rotina de mais de 70 mil trabalhadores do setor. A medida, que começou no dia 1º de março e atinge 1.500 lojas nos 78 municípios capixabas, alterou escalas, horários e a organização da vida fora do trabalho para milhares de profissionais.

Acordo coletivo estabelece folga obrigatória aos domingos

A mudança foi definida na Convenção Coletiva de Trabalho assinada entre a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado Espírito Santo (Fecomércio-ES) e o Sindicato dos Comerciários. O Espírito Santo se tornou o único estado do país com acordo coletivo que suspende o funcionamento do segmento aos domingos, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

O modelo, que será reavaliado em novembro, já foi adotado no estado entre 2009 e 2018. A decisão atual resulta de uma combinação de fatores: baixo faturamento aos domingos, dificuldade para contratar e montar escala de funcionários.

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Opiniões divididas entre trabalhadores

Para entender como essa mudança impactou a rotina de quem trabalha no setor, a reportagem ouviu funcionários de uma rede de supermercados do Espírito Santo. As opiniões se dividem entre benefícios e desafios:

  • Folga aos domingos: alguns trabalhadores comemoram, já que é quando a maioria das pessoas também está de folga, o que permite passar mais tempo com a família e amigos
  • Falta de um dia útil livre: outros sentem dificuldade para resolver pendências do dia a dia, como ir ao banco, ao cartório ou até cuidar de questões pessoais

A operadora de caixa Amanda Pessoa foi uma das que comemorou a mudança: "Tenho aproveitado para descansar, ver os amigos, que no meio de semana era mais corrido. O domingo é muito bom, porque você pode ir na igreja tranquila, por exemplo".

Já a atendente Gabrielli de Souza Rodrigues relatou dificuldades: "Se eu tenho que resolver alguma coisa, fica complicado, porque a maioria das coisas é só no meio de semana".

Transporte público e qualidade de vida

Um dos problemas que a folga aos domingos resolveu foi a dificuldade para chegar ao trabalho usando transporte público. Como aos domingos a oferta de coletivos é reduzida, os trabalhadores enfrentavam desafios logísticos.

A especialista em Recursos Humanos Joyce Santiago destacou que o domingo significa mais do que um dia de folga: "A maioria das pessoas está em casa, é diferente de quando você tem uma folga durante a semana e seus amigos e familiares estão trabalhando. No domingo, o ambiente é favorável ao descanso".

Mudanças operacionais e novas escalas

Com o fechamento aos domingos, algumas redes fizeram alterações no horário de funcionamento das unidades para compensar os dias em que as portas não serão abertas. Enquanto algumas lojas vão abrir mais cedo, outras devem fechar mais tarde, principalmente às sextas-feiras e aos sábados.

Além do fechamento aos domingos, parte das unidades do Grupo Coutinho, responsável pelas lojas do Extrabom, Extraplus e AtacadoVem, começou a implementar a escala 5x2, com dois dias de folga por semana. A proposta mantém as 44 horas semanais, mas redistribui a carga em cinco dias de trabalho.

Dados econômicos e regulamentação

Dados da Secretaria de Estado da Fazenda do Espírito Santo comprovam um dos argumentos do setor para o fechamento. Um levantamento da Receita Estadual mostra que, em 2025, o domingo foi o dia com menor média de vendas entre hipermercados, supermercados, mercearias, minimercados e hortifrutis no estado.

Enquanto o sábado registrou média de R$ 102 milhões em vendas, o domingo ficou em cerca de R$ 25,9 milhões. A norma segue as diretrizes da Portaria nº 3.665/2023 do Ministério do Trabalho e Emprego, que determina que o funcionamento do comércio aos domingos e feriados dependa de autorização em acordo coletivo.

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O acordo estabelece fechamento entre 1º de março e 31 de outubro de 2026, com reavaliação ao fim do período, e prevê multa equivalente a um salário do trabalhador por domingo em caso de descumprimento. Há exceção para pequenos mercados de bairro, desde que funcionem apenas com os proprietários, sem empregados registrados.