Sociedade da Performance: Saúde Mental no Trabalho em Crise no Brasil
Crise de Saúde Mental no Trabalho Atinge Meio Milhão no Brasil

Sociedade da Performance: Saúde Mental no Trabalho em Crise no Brasil

A saúde mental no ambiente de trabalho brasileiro transformou-se de um tema secundário para uma emergência nacional alarmante. Os números oficiais são contundentes e revelam uma realidade preocupante: conforme dados do Instituto Nacional do Seguro Social referentes ao ano de 2025, foram concedidas impressionantes 546.250 licenças médicas por questões de saúde mental. Desse total, mais de 166 mil correspondem a transtornos de ansiedade e aproximadamente 126 mil a episódios depressivos. Este volume coloca o Brasil em posição superior à média global de estresse ocupacional, indicando claramente que pressões estruturais profundas estão afetando os trabalhadores em todas as esferas.

Pressão Hierárquica: Do Medo da Base à Exigência do Topo

O psicanalista e mentor de executivos Rogério Braga analisa que o problema permeia toda a hierarquia corporativa, manifestando-se de formas distintas conforme a posição. Na base da pirâmide organizacional, o medo emerge como um dos principais catalisadores do sofrimento psicológico. "A base da pirâmide sofre intensamente pelo medo constante de perder o emprego e pela dificuldade de recolocação no mercado, aliado à pressão organizacional por maior eficiência e resultados imediatos", explica Braga. Esta combinação perversa entre cobrança exacerbada por produtividade e insegurança econômica gera um ambiente de tensão permanente e desgastante.

A Tirania da Performance Contínua

No extremo oposto da hierarquia, na alta direção, a pressão assume contornos diferentes mas igualmente devastadores. Executivos enfrentam diariamente as exigências da chamada sociedade da performance, onde o erro parece não ter espaço e a excelência precisa ser mantida constantemente. "Esta necessidade de performance contínua é um dos fatores que progressivamente colapsa a saúde física e mental, pois exige que o profissional esteja sempre performando, sem direito ao erro ou à admissão de desconhecimento", detalha o especialista. O resultado direto deste cenário são casos crescentes de síndrome de burnout e afastamentos prolongados do trabalho.

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Comparação Digital e Desgaste Emocional

Um elemento contemporâneo que agrava significativamente esta situação é a comparação constante alimentada pelas redes sociais e ambientes digitais. Profissionais de todos os níveis passam a medir suas trajetórias com base em versões idealizadas e frequentemente distorcidas de sucesso. "Quando o indivíduo entra neste esquema de comparação digital, tende a sempre se colocar em posição inferior, o que gera depressão e desânimo tanto para executivos quanto para qualquer trabalhador dedicado", alerta Braga. Esta sensação persistente de insuficiência amplia a frustração e contribui decisivamente para o esgotamento emocional.

Integração Invasiva versus Equilíbrio Tradicional

O psicanalista também questiona profundamente o conceito tradicional de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Na visão de Braga, o que existe atualmente é uma integração muitas vezes invasiva e desgastante. "Não aprecio o termo equilíbrio. Vivemos em uma realidade de integração entre vida pessoal e profissional, e esta integração precisa ser harmoniosa para não se tornar opressiva", argumenta. A tecnologia reforça esta mistura problemática: "Com celulares permanentemente conectados, atendemos chamadas fora do horário, iniciamos o trabalho pela manhã e frequentemente estendemos atividades para os fins de semana".

Encontrando Propósito e Humanidade

Diante deste cenário complexo e desafiador, o especialista defende que o objetivo primordial não deve ser meramente sobreviver ao ambiente corporativo, mas encontrar propósito genuíno e preservar a humanidade. "A questão central não é sobreviver à vida corporativa, mas sim descobrir uma saída que permita prosperar sem perder a essência humana", afirma Braga. Ele complementa: "Devemos nos preocupar em cultivar um propósito claro, buscar maior humanidade, desenvolver flexibilidade emocional e, crucialmente, pedir ajuda quando necessário. Estas atitudes facilitam nossa jornada e permitem uma existência mais plena e saudável".

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Em um contexto profissional cada vez mais exigente e competitivo, a saúde mental deixa definitivamente de ser um luxo ou acessório para se tornar condição fundamental tanto para a produtividade sustentável quanto para o bem-estar integral dos trabalhadores brasileiros. A sociedade da performance exige, portanto, uma reavaliação urgente de valores e práticas organizacionais.