Um dos palcos mais icônicos de São Paulo está prestes a passar por uma transformação radical. Nos dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 2026, o Ginásio do Ibirapuera, tradicionalmente associado a grandes eventos esportivos e shows, será convertido em uma fábrica de confecção totalmente operacional. Esta é a proposta ousada da terceira edição do MBA Fashion Day, um evento imersivo que promete revolucionar a forma como a gestão é ensinada no setor têxtil brasileiro.
Um espetáculo teatral da eficiência industrial
A imersão foi concebida para funcionar como uma peça teatral dividida em oito atos, percorrendo todo o ciclo produtivo de uma confecção. Cerca de 300 profissionais do mercado subirão ao palco para executar, em tempo real, todas as etapas: desde a concepção do produto e o planejamento financeiro até a modelagem, corte, costura, acabamento e a discussão sobre a sucessão do negócio. A ideia é substituir apresentações teóricas em slides por uma demonstração prática e dinâmica.
O idealizador do projeto, Eduardo Cristian, fundador da consultoria Costurando Sucesso e especialista em inteligência de mercado para confecções, explica a motivação por trás do formato inusitado. "A gente não vai estar falando como resolver o problema. A gente vai estar mostrando ao vivo como resolver o problema", afirma. O objetivo central é apresentar soluções palpáveis para os desafios crônicos que pressionam a margem de lucro do setor.
Desafios do setor e a busca por competitividade
Cristian destaca que a indústria têxtil nacional enfrenta uma equação difícil em 2026, com problemas persistentes como a escassez de mão de obra qualificada e os impactos de uma taxa Selic elevada, que encarece matéria-prima e salários. "Se eu tiver que repassar o custo de tudo isso para o produto final, eu vou perder venda, porque eu me torno menos competitivo", analisa.
A resposta para essa pressão, segundo ele, está na otimização de processos. O evento focará em demonstrar como reduzir erros, retrabalho e desperdícios – tanto de insumos quanto de horas trabalhadas – para melhorar o custo final sem necessariamente aumentar o preço. "Quando você tem uma junção de organização disso tudo, você consegue ter um custo melhor do teu produto", complementa.
Gestão de pessoas como pilar da produtividade
Outro eixo fundamental da encenação será a gestão de pessoas. Cristian defende que uma liderança eficaz gera equipes mais engajadas, o que se traduz diretamente em maior produtividade e qualidade. "Uma equipe mais engajada não só produz mais, ela produz melhor", ressalta. Este engajamento é visto como antídoto para problemas caros como o turnover (rotatividade) e o absenteísmo, que oneram significativamente as empresas.
A dinâmica no Ibirapuera colocará à prova a aplicação de metodologias de gestão em um cenário real e de curto prazo. "Vamos aplicar metodologias e ferramentas para criar gestão e processos e provar que isso tudo é capaz de ser feito em dois dias", desafia o especialista, reunindo profissionais que nunca trabalharam juntos para operar em sintonia.
O contexto macro reforça a importância da iniciativa. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o setor faturou impressionantes R$ 215 bilhões em 2024, um crescimento de aproximadamente 7% em relação ao ano anterior. A produção têxtil, responsável por cerca de 40% desse total, somou R$ 86 bilhões, com alta de 4%. Em um mercado de tal magnitude, ganhos incrementais de eficiência podem representar bilhões em economia e maior solidez para a indústria nacional frente à concorrência internacional.