Fim da taxa das blusinhas gera temor de desemprego no polo têxtil de Americana
Fim da taxa das blusinhas ameaça empregos no polo têxtil

A indústria têxtil nacional enfrenta um novo desafio com o fim da chamada "taxa das blusinhas", o imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. A medida, formalizada por Medida Provisória e portaria do Ministério da Fazenda, entrou em vigor nesta terça-feira (12) e já causa insatisfação entre empresários do segmento têxtil de Americana (SP) e região.

Impacto no emprego e na concorrência

O presidente do Sindicato das Indústrias Têxteis de Americana e Região (Sinditec), Edison Botasso, alerta que a decisão "provavelmente causará desemprego". Segundo ele, as compras internacionais estão "financiando os empregos na Ásia", não apenas na cadeia têxtil, mas também em eletrônicos e outros setores.

O Sinditec representa as indústrias de Americana, Santa Bárbara d'Oeste, Nova Odessa e Sumaré. Essas cidades, junto com Hortolândia, formam o Polo Têxtil, responsável por 85% da produção nacional de tecidos planos de fibras artificiais e sintéticas, sendo o maior do Brasil e um dos maiores da América Latina.

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Carga tributária e custos de produção

Botasso explica que o produto nacional é encarecido por encargos trabalhistas e impostos estaduais e federais. Em São Paulo, o setor tem isenção apenas em transações dentro do estado entre empresas, mas vendas ao consumidor ou importações sofrem ICMS de 17%. Com o fim da taxa, o diferencial competitivo se reduz ao custo de produção, que na China é menor.

"Não que não queiramos que nossos trabalhadores sejam bem assistidos, mas as atribuições estão sendo transferidas e isso gera custos. O produto importado vem isento de carga tributária e trabalhista", afirma Botasso.

O vice-presidente do Sinditec, Leonardo Sant'Anna, calcula que tributos como PIS, Cofins e Imposto de Renda, sem encargos trabalhistas, representam 40% do valor de venda. "Se você vender um produto a R$ 100, R$ 40 é de imposto", pontua.

O economista Caio Katayama alerta que a produção nacional pode ser "freada", gerando desemprego. "Com a livre concorrência com produtos chineses, cuja mão de obra tem coeficiente quase zero de impostos, a cadeia produtiva brasileira sofre grande impacto. O consumidor vai preferir o produto chinês, que chega mais barato mesmo com ICMS", conclui.

Qualidade como diferencial

Diante da disputa de preços, a indústria têxtil da região aposta na qualidade. Botasso afirma que produtos importados mais baratos "não valem tanto a pena", pois podem ter qualidade inferior e roubar empregos nacionais. Katayama complementa que os produtos brasileiros têm melhor qualidade devido ao perfil de produção e regulação, enquanto o fabricante chinês foca na imagem, não no padrão. No Brasil, agências reguladoras e o Código do Consumidor garantem trocas.

Consumidores comemoram

Enquanto empresários reclamam, consumidores como a designer de materiais esportivos Júlia Pina Gonçalves comemoram. Ela parou de comprar roupas internacionais quando a taxa foi implementada em 2024 e agora planeja retomar. "Dinheiro não traz felicidade, mas, para mim, trazia. Foi ótimo", diz.

Reações de entidades

Outras entidades do setor também reagiram negativamente. O Sinditêxtil-SP classificou a medida como "retrocesso gravíssimo" que penaliza quem produz no Brasil. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) ponderou que a medida amplia a desigualdade tributária entre empresas brasileiras e plataformas internacionais. Já a Coalizão Prospera Brasil defendeu que "isonomia tributária não é privilégio, nem protecionismo", mas sim garantir regras iguais para todos.

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