O programa Desenrola 2.0, lançado pelo governo federal, promete alívio imediato para milhões de brasileiros endividados, mas especialistas alertam que a medida não ataca as causas estruturais do problema. Em entrevista ao programa Mercado, o economista Bruno Perri, da Forum Investimentos, afirmou que a experiência anterior já mostrou que programas desse tipo geram uma melhora temporária, seguida por uma retomada da trajetória de alta do endividamento.
Alívio de curto prazo
Segundo Perri, o Desenrola 2.0 pode ajudar a reduzir a inadimplência no curto prazo, mas não muda os fundamentos que alimentam o ciclo de dívidas no Brasil, como juros elevados, estímulo ao crédito e falta de educação financeira. "Se você olhar a curva do problema do endividamento, houve essa melhora e depois recobrou-se uma trajetória de alta", explicou o economista.
Risco do uso do FGTS
Um dos pontos de tensão do novo programa é a possibilidade de usar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar dívidas. Embora o FGTS tenha rendimento baixo, os juros das dívidas chegam a 2% ao mês. Perri alerta que essa solução pode comprometer a reserva financeira do trabalhador, essencial para momentos de emergência, como demissão ou aposentadoria. "Sem uma mudança estrutural na forma como o crédito é usado, o risco é de o ciclo recomeçar", destacou.
Endividamento com gastos básicos
Dados da pesquisa BTG/Nexus, divulgada na semana passada, mostram que o endividamento no Brasil não está concentrado em gastos supérfluos, como muitos imaginam. Cerca de 50% dos entrevistados apontam despesas com alimentação e bebidas como a principal pressão sobre o orçamento, enquanto 47% citam contas básicas como luz, água e aluguel. "É a conta do dia a dia que pesa, e não um excesso isolado", afirmou o economista.
Diferenças por faixa de renda
A pesquisa também revela que o perfil do endividamento varia conforme a renda. Famílias de menor renda se endividam para manter o básico, como comida e moradia, enquanto as de renda mais alta concentram dívidas em financiamentos de longo prazo, como imóveis e veículos. Para Perri, essa diversidade reforça a necessidade de medidas mais específicas e estruturais. "O Desenrola ajuda, mas ainda está longe de atacar a raiz do endividamento no país", concluiu.
O programa Desenrola 2.0, portanto, surge como um paliativo em meio a um problema complexo, que exige ações coordenadas de educação financeira, controle de juros e políticas de renda para ser efetivamente resolvido.



