O anúncio feito pelo governo dos Estados Unidos sobre a intenção de ampliar a produção petrolífera na Venezuela voltou a causar turbulência no mercado global de energia. A declaração do presidente americano, nesta terça-feira, de que empresas do setor poderão operar no país vizinho em até 18 meses, reacendeu as discussões sobre os impactos da crise venezuelana nos preços do barril e, consequentemente, nos resultados da Petrobras.
Efeitos Imediatos e de Longo Prazo para a Estatal
Para especialistas, os reflexos da crise são contraditórios para a empresa brasileira. No curto prazo, a captura surpreendente do ex-presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, gerou uma reação de alta nos preços internacionais do petróleo. Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, explica que esse movimento inicial é positivo para a Petrobras. "Quando a gente olha neste curto prazo, o preço do petróleo subiu. Isso por si só já é motivo para a Petrobras aumentar suas margens, aumentar lucro", afirma.
Ele destaca que a oferta global não se recompõe de forma imediata, já que a China continuará demandando o produto sem contar com seu principal fornecedor na mesma proporção. Esse cenário de maior volatilidade e preços elevados temporariamente beneficia a receita da estatal, que é uma grande exportadora.
No entanto, o horizonte mais distante apresenta riscos. A entrada massiva de petroleiras americanas na Venezuela, com todo o investimento necessário para recuperar a produção do país, pode fazer com que, no longo prazo, o preço global do petróleo caia. Teles lembra que 70% das refinarias dos Estados Unidos estão preparadas para processar o tipo de óleo venezuelano, o que facilitaria a reentrada. "Para o longo prazo isso pode ser ruim para a Petrobras por esse motivo", avalia.
Impacto Direto Limitado e Riscos Políticos Internos
O economista Claudio Felisoni, professor da FIA Business School, concorda que o impacto direto e imediato nos ativos da Petrobras é limitado, uma vez que a empresa não tem hoje uma exposição operacional relevante na Venezuela. O efeito, segundo ele, é mais indireto, vindo do ambiente geopolítico e da reação dos mercados a choques políticos inesperados.
Felisoni aponta que o risco maior pode não estar no cenário internacional, mas dentro do Brasil. "O risco não está propriamente, no meu modo de ver, na Venezuela em si, mas na pressão política interna no nosso país", diz. Em momentos de tensão internacional, o petróleo costuma voltar ao centro do debate político, o que pode gerar incertezas sobre como o governo federal conduzirá a política de preços e investimentos do setor diante das interferências externas.
Crise Reacende Debate sobre a Margem Equatorial
A crise venezuelana também traz à tona o debate sobre a exploração de novas fronteiras no Brasil, em especial na Margem Equatorial. Em outubro de 2025, a Petrobras obteve a licença ambiental do Ibama para iniciar a perfuração de um poço exploratório a 175 km da costa do Amapá, em uma área com potencial estimado em até 30 bilhões de barris.
Para Felisoni, as declarações do governo americano sobre seu interesse no petróleo venezuelano podem ser usadas politicamente pelo presidente Lula para acelerar as pesquisas e a busca por novas jazidas no território nacional, com o argumento de ampliar a independência energética do país.
Contudo, do ponto de vista econômico, o professor se mostra cético. O custo de exploração em águas profundas, como é o caso da Margem Equatorial, é significativamente mais alto do que o custo de simplesmente melhorar a eficiência operacional das empresas na Venezuela, onde o petróleo já está localizado. "O petróleo já está lá na Venezuela, é só uma questão de melhorar a eficiência... e isso, neste momento, é muito mais interessante do que novas frentes de exploração", conclui.
O desempenho das ações da Petrobras na segunda-feira, que não acompanhou a alta de outras petroleiras como a Chevron – apontada como grande beneficiária da abertura venezuelana –, pode refletir justamente essa visão de longo prazo dos investidores, preocupados com a pressão futura sobre as margens da empresa brasileira.