Petróleo dispara com fechamento do Estreito de Hormuz e guerra no Irã, afetando mercados globais
Os preços do petróleo dispararam nesta terça-feira (3) em meio à guerra no Irã e após o anúncio do fechamento do Estreito de Hormuz para navegação. Às 15h15, o barril Brent, referência global da commodity, era negociado acima de US$ 82,13, registrando uma alta diária de 5,65%. Enquanto isso, as Bolsas em todo o mundo e o ouro estão em queda acentuada, enquanto o bitcoin opera em alta, refletindo a volatilidade dos mercados diante da crise geopolítica.
Alta histórica e impacto imediato
O petróleo chegou a ser negociado a US$ 85,10 por volta das 8h, uma alta de 9%, atingindo o maior valor desde 19 de julho de 2024, quando o barril Brent alcançou US$ 85,35. Na época, a commodity era impactada pela disputa presidencial nos EUA entre Donald Trump e Kamala Harris. Nesta terça, a Guarda Revolucionária do Irã ameaçou incendiar qualquer navio que tentar passar pelo trecho que separa o país persa da península Arábica, uma decisão que ameaça parar o fluxo de petroleiros e embarcações que transportam 20% do óleo e do gás natural liquefeito consumidos diariamente pelo mundo.
O destino da maior parte desse volume são grandes consumidores asiáticos, como China e Índia, e a largura do estreito é de meros 40 km em seu ponto mais apertado, tornando-o um gargalo crítico para o comércio global de energia. O barril Brent já havia disparado 13% na abertura do mercado no domingo (8), o primeiro dia de negócios após os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã que mataram o líder supremo do país, Ali Khamenei. O preço do barril do petróleo WTI (West Texas Intermediate) também disparou quase 8% nesta terça, chegando a atingir US$ 77,57, seu maior valor desde 23 de junho de 2025.
Interrupções na produção e riscos regionais
Desde a segunda-feira (2), empresas em todo Oriente Médio interromperam suas atividades no setor de petróleo e gás com o confronto entre EUA e Israel contra o Irã, que vem atingindo vários países na região. O Irã produz cerca de 3,3 milhões de barris por dia, ou 3% da produção mundial, mas exerce influência ainda maior sobre o fornecimento de energia devido à sua posição às margens do Estreito de Hormuz. A escalada das cotações internacionais do petróleo joga pressão sobre os preços dos combustíveis no Brasil e pode atrasar o ciclo de queda da taxa de juros, mas especialistas não veem risco de desabastecimento.
Analistas brasileiros e internacionais dizem que o impacto sobre os preços vai depender da duração e da intensidade do conflito, principalmente em relação ao fechamento do Estreito de Hormuz por um prazo mais longo. Especialistas já contam com muita volatilidade nas cotações internacionais, mas há expectativa de que o preço do barril seja contido pela sobra de óleo no mundo, resultado de a demanda crescer menos que a oferta. A gigante petrolífera saudita Aramco informou a alguns compradores de seu petróleo bruto Arab Light que desviará a carga para Yanbu, na costa ocidental do Mar Vermelho, o que permitiria evitar o Estreito de Hormuz devido a ataques a embarcações.
Queda das Bolsas e reações globais
A ameaça de Teerã de fechar o Estreito de Hormuz levou as Bolsas de todo mundo a despencarem nesta terça. Na Ásia, as Bolsas da China tiveram o pior resultado diário em um mês, enquanto o índice de Seul despencou mais de 7%. Na Europa, as principais Bolsas caem mais de 3%, com o índice Euro STOXX 600 recuando 3,64% às 15h15, a caminho de fechar no maior recuo desde abril do ano passado. As Bolsas dos EUA também estão em queda acentuada, com a Nasdaq caindo 1,22%, o Dow Jones desvalorizando 1,02% e o S&P 500 perdendo 1,08%.
Mesmo o ouro, considerado um porto seguro para investidores em momentos de risco, também operava em queda de 1,90% nesta terça-feira, cotado a US$ 5.209,55. Já o bitcoin está em alta superior a 2%, a US$ 67,45 mil, após ter atingido US$ 69,21 mil na sessão. Para analistas, o movimento é impactado pela ameaça iraniana e pela disparada do petróleo. "Muito dependerá do preço do petróleo. Qualquer pico sustentado certamente desencadeará um movimento de aversão ao risco mais significativo", comentou Jim Reid, estrategista do Deutsche Bank.
Consequências para o transporte marítimo e abastecimento
O fechamento do Estreito de Hormuz fez com que centenas de navios-tanque carregados com petróleo e GNL ficassem encalhados perto de grandes polos, como o porto de Fujairah nos Emirados Árabes Unidos, sem conseguir alcançar clientes na Ásia, Europa e outros lugares. A situação levará Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e Irã a começar a cortar a produção de petróleo em questão de dias, a menos que consigam encontrar novos navios-tanque para transportar o petróleo que continua sendo extraído do subsolo.
O ministro da Marinha Mercante da Grécia, Vassilis Kikilias, pediu proteção do transporte marítimo global e dos marinheiros, afirmando: "Isso é alarmante e preocupante, e eu gostaria que o transporte marítimo global ficasse de fora dos conflitos de guerra. O transporte marítimo global tem a ver com o comércio global, do qual todos precisam. E os marinheiros, é claro, não têm culpa". As taxas de frete marítimo ao redor do mundo também dispararam para um recorde histórico à medida que o conflito se intensificou e Teerã passou a atacar navios que atravessam o estreito.
Perspectivas futuras e incertezas
Os investidores estão preocupados que os preços mais altos do petróleo possam alimentar a inflação em toda a economia e complicar ainda mais as decisões de política monetária para autoridades de bancos centrais que já enfrentam aumentos de preços impulsionados por tarifas. O rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos atingiu seu nível mais alto em mais de uma semana, e investidores adiaram as expectativas de um corte de 25 pontos-base na taxa de juros pelo Federal Reserve de julho para setembro.
Espera-se que a Europa corra para repor estoques, esgotados por um inverno rigoroso, e precisará depender ainda mais do gás americano, após rejeitar o gás russo depois da invasão da Ucrânia em 2022. A Índia, um dos países mais dependentes de petróleo e gás do Oriente Médio, afirmou que começou a racionar o fornecimento de gás para indústrias após a interrupção da produção do Qatar, destacando os efeitos em cadeia da crise.
