Guerra no Oriente Médio dispara preços do petróleo e ameaça aviação global
As ações das companhias aéreas despencaram nesta segunda-feira (9), enquanto os preços das passagens disparavam, em meio à guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. O conflito causou uma forte alta nos preços do petróleo, gerando temores de uma profunda queda nas viagens e da possibilidade de uma paralisação generalizada dos aviões.
Alta histórica do petróleo pressiona setor aéreo
Os preços do petróleo eram negociados com alta de mais de 15%, em níveis não vistos desde 2022. Em determinado momento, os futuros do petróleo bruto Brent subiram até 29%. Essa situação deve aumentar a pressão sobre as companhias aéreas que já operam em um espaço aéreo restrito, à medida que os viajantes se esforçam para evitar o conflito no Oriente Médio.
Dentre as companhias que operam no Brasil, a ação da Latam recuava próximo a 2% por volta das 13h40. Já a ação preferencial da Gol recuava 0,5% no mesmo período. A tendência, segundo especialistas do setor, é que as companhias aéreas brasileiras sejam penalizadas com o desenrolar da guerra.
"A margem de lucro das empresas é muito pequena. Está entre 3% e 6%, então essa forte alta do combustível tem o potencial de consumir rapidamente o caixa das companhias aéreas, forçando ajustes de rotas, redução de frequência de voos e aumento de tarifas", afirma Francisco Lyra, presidente do Instituto Brasileiro de Aviação e sócio-fundador da consultoria C-Fly Aviation.
Impactos diretos no mercado brasileiro
Lyra projeta um aumento de 5% a 10% no preço das passagens em voos no Brasil, cenário que pode ser de até 20% a depender do desenrolar da guerra no Oriente Médio. Hoje, o mercado nacional é dominado por três companhias: Azul, Gol e Latam - a primeira, inclusive, acaba de anunciar sua saída do Chapter 11, mecanismo similar à recuperação judicial nos Estados Unidos.
Atualmente, o querosene de aviação representa entre 30% e 40% dos custos de uma companhia aérea no Brasil. O setor é duplamente impactado pelo dólar, que voltou a subir devido ao aumento das tensões geopolíticas. "As empresas que voam para o exterior têm maior exposição ao risco cambial", diz Lyra.
Além da escalada dos preços do petróleo e da recuperação do dólar frente a moedas de países emergentes, Ricardo Fenelon Junior, ex-diretor da Anac e sócio da FBR Advogados, projeta uma perda de valor para companhias que têm voos para o Oriente Médio. "O conflito está em uma região do mundo que vinha funcionando como um grande hub nos últimos anos. Tem voos, inclusive para o Brasil, que estão sendo impactados."
Redução na demanda por viagens
Para agravar ainda mais a situação dos consumidores, houve um aumento significativo nos preços das passagens aéreas. Os voos diretos de Seul para Londres em 11 de março com a Korean Air Lines, por exemplo, passaram de US$ 564 sete dias antes para US$ 4.359, de acordo com dados do Google Flights.
"O problema para as companhias aéreas agora é que a demanda por viagens pode ser reduzida à medida que os custos se tornarem proibitivos para os quem viaja a lazer e à medida que algumas empresas começarem a limitar as viagens de negócios devido às perspectivas incertas", disse Lorraine Tan, diretora de pesquisa de ações para a Ásia da Morningstar.
O impacto das altas tarifas aéreas pode limitar a demanda por viagens durante grande parte de 2026, acrescentou Tan. Na Europa, a Air France KLM, a IAG, proprietária da British Airways, e a Lufthansa caíam entre 4% e 6% no início das negociações, enquanto as principais companhias aéreas dos EUA se desvalorizavam cerca de 4% no pré-mercado.
Risco de aeronaves paradas e falências
O combustível é a segunda maior despesa das companhias aéreas, depois da mão de obra, representando, em geral, de um quinto a um quarto das despesas operacionais. "Se o petróleo bruto está subindo 20%, o combustível de aviação está subindo várias vezes mais, pois está ainda mais escasso, adicionando um custo significativo às operações", disse Subhas Menon, diretor da Association of Asia Pacific Airlines.
"Sem um alívio a curto prazo, as companhias aéreas em todo o mundo poderão ser obrigadas a manter milhares de aeronaves em solo, enquanto algumas das transportadoras mais frágeis financeiramente do setor poderão interromper suas operações", afirmaram analistas do Deutsche Bank em nota aos clientes.
Eles também observaram que um aumento acentuado nos custos do combustível de aviação em 2005, após os furacões Katrina e Rita, resultou em danos generalizados e significativos para o setor, incluindo o pedido de falência das principais companhias aéreas Delta e Northwest, de acordo com o Capítulo 11, naquele ano.
Cancelamentos em massa e desvios de rotas
Desde 28 de fevereiro, quando começou a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, até 8 de março, mais de 37 mil voos de e para o Oriente Médio foram cancelados, de acordo com dados da Cirium. Com o espaço aéreo severamente restrito, as companhias aéreas foram forçadas a redirecionar voos, transportar combustível extra ou fazer paradas adicionais de reabastecimento para se protegerem contra desvios repentinos ou rotas de voo mais longas por meio de corredores mais seguros.
Juntas, a Emirates, a Qatar Airways e a Etihad normalmente transportam cerca de um terço dos passageiros da Europa para a Ásia e mais da metade de todos os passageiros da Europa para a Austrália, Nova Zelândia e ilhas próximas do Pacífico, de acordo com a Cirium.
Enquanto isso, a Bolsa registrou forte alta e encerrou o dia em alta de 0,86%, a 180.915 pontos, com o impulso do setor petrolífero brasileiro. A moeda americana é impulsionada pela disparada do petróleo acima de US$ 100, refletindo a volatilidade global causada pelo conflito.
