Preços do gás disparam na Europa após ameaça russa de corte de fornecimento
Gás dispara na Europa com ameaça russa de corte de fornecimento

Crise energética se intensifica com ameaça russa de corte no fornecimento de gás

Os preços de referência do gás no atacado registraram aumentos significativos nesta quinta-feira (5) nos mercados da Holanda e Reino Unido, após declarações alarmantes do presidente russo Vladimir Putin sobre a possibilidade de interromper os fluxos remanescentes de gás para a Europa. A situação se agravou com o anúncio da QatarEnergy sobre força maior em embarques de Gás Natural Liquefeito (GNL), dispositivo que isenta a empresa de responsabilidades por falhas no fornecimento.

Impacto imediato nos mercados europeus

O contrato holandês de primeiro mês, considerado o preço de referência para a Europa, subiu 2% para 49 euros por megawatt-hora às 09h28, após ter registrado alta de 8,3% mais cedo na sessão, alcançando 52,80 euros/MWh. No Reino Unido, o contrato de abril apresentava valorização de 2,1%, sendo negociado a 129,5 libras, segundo dados da ICE, depois de ter subido 7,2% no início das operações.

As declarações de Putin foram feitas em resposta a questionamentos sobre os planos europeus de proibir importações de gás russo por gasoduto até o final de 2027 e banir novos contratos de GNL russo a partir de abril de 2026. O presidente russo afirmou, conforme transcrição divulgada pelo Kremlin, que "talvez seja mais lucrativo parar de fornecer ao mercado europeu agora mesmo", considerando a abertura de outros mercados.

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Reunião governamental russa para discutir medidas

O vice-primeiro-ministro Alexander Novak, principal assessor de Putin para questões energéticas, confirmou que o governo russo se reunirá em breve para discutir a possível interrupção das exportações de gás para a Europa. "Nos reuniremos em breve, conforme instruído pelo presidente, para discutir a situação atual com as empresas de energia e possíveis rotas de transporte para nossos suprimentos energéticos", declarou Novak a repórteres.

A mudança seria drástica considerando que a Rússia costumava fornecer aproximadamente 40% do gás por gasoduto da União Europeia, porcentagem que caiu para apenas 6% no ano passado, segundo dados da Comissão Europeia.

Análises apontam riscos significativos para abastecimento europeu

Analistas do ING alertaram em nota matinal que a ameaça de Putin coloca em risco uma quantidade considerável de fornecimento, especialmente considerando os fluxos de GNL como principal problema. Eles destacaram que, embora em tempos normais ajustes nos fluxos comerciais do mercado de GNL seriam mais administráveis, a situação atual com 110 bilhões de metros cúbicos por ano de GNL do Golfo paralisados representa um desafio significativo para a Europa.

Os especialistas também observaram que a escassez no mercado global de GNL está levando compradores asiáticos a buscar fornecimento alternativo, aumentando a competição por recursos energéticos.

Desafios para reabastecimento de estoques de inverno

A tarefa da Europa de reabastecer os estoques de gás para o próximo inverno (entre dezembro e março) tornou-se mais cara e complexa. As consequências do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã perturbam a produção e embarques de GNL, restringindo a oferta e fazendo os preços dispararem.

Desde o início das hostilidades no sábado, os preços do gás na Europa subiram impressionantes 53%. Segundo analistas da Kpler, compradores europeus precisam encontrar o equivalente a cerca de 700 cargas de GNL, ou 67 bilhões de metros cúbicos, para encher os estoques neste verão - aproximadamente 180 cargas (17 bilhões de metros cúbicos) a mais do que no ano passado.

Os Estados Unidos, maior produtor mundial de GNL, têm pouca capacidade ociosa para aumentar rapidamente a produção e compensar o fornecimento perdido, já que as plantas operam próximas da capacidade máxima e a maioria das cargas está comprometida em contratos de longo prazo.

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Carvão registra alta recorde como alternativa energética

Os preços do carvão dispararam para o maior patamar em mais de dois anos, com a alta dos preços do gás levando empresas de energia a buscar suprimentos adicionais de carvão para manter operações. Na Europa, os preços do carvão térmico usado em usinas de energia subiram 26% desde a véspera da guerra, atingindo US$ 133 por tonelada, com ganhos semelhantes nos mercados australiano e asiático.

"Sem dúvida, os mercados globais de carvão não viam uma pressão de preços assim desde a invasão russa da Ucrânia", afirmou Tom Price, analista da Panmure Liberum, destacando que se trata do maior choque no mercado de carvão em vários anos.

Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, países europeus aumentaram o uso de carvão enquanto trabalhavam para reduzir dependência do gás russo, levando os preços do carvão a recordes superiores a US$ 400 por tonelada.

A guerra no Irã tem pouco impacto direto no movimento de carvão pelo mundo (pouco passa pelo estreito de Ormuz), mas fez os preços do petróleo e gás dispararem, elevando preocupações sobre fornecimento de GNL. Isso levou empresas que normalmente dependem do gás a recorrer a usinas a carvão mais poluentes como alternativa, especialmente no Japão, Coreia do Sul, Taiwan e União Europeia.

Alex Thackrah, gerente sênior de carvão da Argus, alertou que um conflito prolongado no Oriente Médio poderia elevar os preços do carvão para quase o dobro dos níveis atuais, alcançando cerca de US$ 250 por tonelada, especialmente se a crise energética reativar usinas termelétricas a carvão desativadas.

George Cheveley, gestor de portfólio da Ninety One, observou que o carvão está se beneficiando tanto das preocupações com fornecimento de energia quanto de cortes de produção realizados nos últimos anos. "Claramente, preços de energia mais altos terão algum efeito na demanda por carvão em alguns mercados", afirmou, ressaltando que tudo depende da duração da crise atual.