Vídeos de Financiamento Viralizam e Reacendem Debate sobre Custo Real do Crédito
Uma série de vídeos que mostram negociações em vendas de veículos financiados tem viralizado nas redes sociais nas últimas semanas, reacendendo uma dúvida comum entre consumidores brasileiros: afinal, quanto um financiamento realmente custa? Nos comentários dessas publicações, internautas questionam valores que vão muito além das parcelas anunciadas, evidenciando uma lacuna no entendimento sobre os custos totais do crédito.
O que é o Custo Efetivo Total (CET)?
Isso acontece porque, além dos juros, as operações de crédito têm o chamado Custo Efetivo Total (CET), que reúne tarifas, seguros e outros encargos e está presente em todas as modalidades de crédito — do financiamento de veículos e imóveis ao crédito consignado. O CET é a taxa que mostra o custo real de um empréstimo ou financiamento, permitindo uma comparação mais precisa entre diferentes ofertas de crédito.
Veja o que entra no cálculo do CET:
- Juros: valor cobrado pelo banco para conceder o empréstimo — funciona como o “aluguel” do dinheiro ao longo do tempo.
- Imposto sobre Operações Financeiras (IOF): tributo obrigatório cobrado pelo governo em operações de crédito, que aumenta o custo final da dívida.
- Tarifas: incluem cobranças como taxa de cadastro e outros serviços administrativos definidos pela instituição financeira.
- Seguros: como o seguro prestamista, que quita a dívida em caso de morte ou invalidez. Nem sempre são obrigatórios e devem ser autorizados pelo consumidor.
- Outros encargos: despesas adicionais da operação, que podem variar conforme o banco e o tipo de crédito.
Como Comparar o CET na Prática
Os juros são o principal componente do CET e, ao longo do tempo, concentram a maior parte do valor pago. Por isso, pequenas variações na taxa podem elevar significativamente o custo final da dívida. No crédito em geral, eles ficam entre 30% e 60% ao ano, mas no cartão — especialmente no rotativo — podem superar 400% ao ano, o que o torna uma das modalidades mais caras do mercado.
Na prática, o CET ajuda a revelar quanto o crédito realmente custa. Em um financiamento de R$ 1.000, por exemplo, com juros de 12% ao ano, a inclusão de taxas como cadastro e IOF pode elevar o custo total para cerca de 43,9% ao ano. Isso mostra que olhar apenas para a taxa de juros ou para o valor da parcela pode dar uma falsa impressão de que o empréstimo é barato, segundo especialistas consultados.
“Mesmo sem dominar matemática financeira, dá para usar uma regra simples: quanto eu pego hoje e quanto vou devolver no total”, afirma Marcos Crivelaro, professor de finanças da Fundação Vanzolini, da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, encargos como seguros e serviços adicionais muitas vezes passam despercebidos. “A pessoa acha que está pagando só juros, mas há vários custos embutidos que elevam o valor final”, diz.
Relação com o Endividamento e Direitos do Consumidor
O tema ganha ainda mais relevância em um cenário de endividamento elevado. Em março, 80,4% das famílias brasileiras tinham dívidas a vencer, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o maior nível da série histórica. Já a inadimplência — quando há contas em atraso — ficou em 29,6%, estável em relação a fevereiro, mas acima dos 28,6% registrados um ano antes.
Mesmo com o início da queda da taxa Selic, os juros seguem altos, o que mantém o crédito caro e pressiona o orçamento das famílias. A alta dos combustíveis também encarece o custo de vida e tende a estimular o uso do crédito. Para Crivelaro, decisões tomadas sem pleno entendimento dos custos podem agravar a situação financeira. “No fim, o que importa é o total pago. Às vezes a parcela cabe no bolso, mas o valor final assusta”, afirma.
Por determinação do Banco Central do Brasil (BC), bancos e instituições financeiras são obrigados a informar o CET antes da contratação, junto com uma planilha que detalha cada custo e seu peso no valor final da dívida. Esse demonstrativo também deve constar de forma clara no contrato.
Segundo Stefano Ribeiro Ferri, especialista em direito do consumidor, a transparência é essencial para evitar prejuízos. “O CET deve refletir o custo total da operação e aparecer de forma destacada tanto no contrato quanto na publicidade. O consumidor precisa saber exatamente quanto vai pagar”, afirma. De acordo com ele, a omissão de informações, a inclusão de serviços sem consentimento ou a chamada venda casada podem configurar práticas abusivas. “Se houver falta de transparência ou cobrança indevida, o consumidor pode buscar a revisão do contrato na Justiça. Em alguns casos, ele pode até ser anulado ou ajustado”, conclui.
Diante desse cenário, a recomendação é cautela. “Não é o momento de assumir novas dívidas, a não ser para substituir uma mais cara por outra mais barata — e, ainda assim, com análise cuidadosa”, diz Crivelaro.



