Juros altos travam crédito para indústria, alerta especialista
Juros altos são entrave para crédito à indústria

O cenário de juros elevados no Brasil continua a representar um obstáculo significativo para o setor industrial, dificultando o acesso a linhas de crédito essenciais para investimentos e expansão. A análise foi apresentada pela economista e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Simone Deos, durante participação no programa Conexão Record News, exibido em 19 de janeiro de 2026.

O impacto da taxa Selic no financiamento industrial

Simone Deos explicou que a política monetária restritiva, com a manutenção da taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados, tem um efeito direto e negativo sobre o custo do crédito para as empresas. Quando o Banco Central mantém os juros altos para conter a inflação, as taxas de empréstimos e financiamentos oferecidos pelos bancos também sobem.

Isso encarece sobremaneira o capital de giro e os financiamentos de longo prazo, que são justamente os tipos de crédito mais necessários para a indústria realizar investimentos em maquinário, tecnologia e ampliação da capacidade produtiva. A economista destacou que o setor industrial é particularmente sensível a esse movimento, pois seus projetos demandam grandes volumes de recursos e prazos extensos para maturação.

Consequências para o crescimento e a produtividade

O entrave no acesso a crédito com custos viáveis gera uma série de consequências negativas para a economia como um todo. A primeira e mais direta é a postergação ou cancelamento de projetos de investimento. Sem poder financiar novas linhas de produção, modernizações ou ganhos de eficiência, as indústrias veem sua competitividade comprometida.

Esse cenário, conforme apontado pela especialista, reduz o potencial de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e limita a geração de empregos de qualidade. A falta de investimentos em inovação e produtividade também pode levar a uma perda de participação do setor industrial na economia brasileira frente a competidores internacionais que operam em ambientes com custo de capital mais baixo.

O debate sobre a política monetária

A análise de Simone Deos insere-se no amplo debate sobre os rumos da política econômica brasileira. De um lado, o Banco Central tem a missão primordial de controlar a inflação, utilizando a taxa de juros como seu principal instrumento. De outro, agentes econômicos e representantes do setor produtivo argumentam que um ciclo muito longo ou intenso de juros altos pode sufocar a atividade econômica real.

A professora da FGV não questiona a autonomia ou a importância do controle inflacionário, mas chama a atenção para os efeitos colaterais da política monetária restritiva sobre o financiamento da indústria. Ela sugere a necessidade de um equilíbrio delicado, onde a busca pela estabilidade de preços também considere os impactos setoriais e de longo prazo sobre a capacidade produtiva do país.

Em resumo, a manutenção de juros em patamares elevados, embora possa ser uma ferramenta necessária em determinado contexto macroeconômico, atua como um freio ao desenvolvimento industrial. A dificuldade em obter crédito barato e de longo prazo desestimula os investimentos, comprometendo a modernização, a expansão e, consequentemente, o futuro da indústria nacional e sua contribuição para a economia brasileira.