Banco Central sinaliza corte da Selic em março, mas incertezas fiscais e cambiais exigem cautela
BC prepara corte da Selic em março, mas riscos fiscais preocupam

Banco Central sinaliza corte da Selic em março, mas incertezas fiscais e cambiais exigem cautela

À frente do Banco Central, Gabriel Galípolo enfrenta um delicado equilíbrio entre controlar a inflação e aliviar a economia, com sinais de alívio nos preços, mas riscos fiscais persistentes. O cenário ainda é incerto, o que justifica a extrema cautela nos próximos passos da política monetária.

Contexto e desafios iniciais

Ao assumir o comando do Banco Central no início de 2025, Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente Lula, chegou sob desconfiança do mercado. Havia temores de que ele reduzisse a taxa Selic apenas para agradar ao padrinho político. Contudo, Galípolo fez o oposto: deu continuidade ao aperto monetário iniciado por seu antecessor, Roberto Campos Neto, elevando o juro básico até 15% anuais, a maior taxa desde 2006.

Nos últimos meses, esse esforço começou a ser recompensado. A inflação recuou, com projeções de 3,4% para este ano, um sinal que permitiu uma mudança de rota. Na ata da reunião do fim de janeiro, o Copom, o comitê de diretores do BC que decide a taxa básica de juro, indicou que deve começar a fazer cortes em março.

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Impactos da política monetária restritiva

A missão de Galípolo é difícil, e a pressão por mudanças cresce a cada dia diante dos efeitos paralisantes causados pelo juro alto. Em 2025, foram financiados 458 mil imóveis com recursos da poupança, uma queda de 14% em relação a 2024. A política monetária restritiva prejudica toda a economia, a geração de emprego e a renda, afirma Fernando Ferreira Filho, presidente da CBIC, entidade que reúne as construtoras.

O mercado de trabalho também sentiu o impacto: o Brasil criou 1,28 milhão de empregos formais no ano passado, 23% menos que em 2024, o pior desempenho desde a pandemia de covid-19. Até os investidores sofrem, com exceção dos fundos de renda fixa, que captaram 84 bilhões de reais, enquanto outros enfrentam fuga de recursos.

Incertezas e fatores de risco

O cenário ainda é incerto, daí a cautela com os próximos passos. Enquanto o Copom projeta IPCA de 3,4% neste ano, os analistas são mais conservadores e estimam, em média, 3,99% em 2026 e 3,80% em 2027. Essa disparidade de projeções é central para definir a magnitude do corte da Selic a partir de março.

Outro ponto de atenção é a inflação de serviços, que acelerou desde setembro, atingindo 6,01% no acumulado do ano, acima dos 5,96% registrados em 2024. Por outro lado, fatores como a fuga de investidores dos Estados Unidos, provocada pela imprevisibilidade do presidente americano Donald Trump, redirecionaram dólares para mercados emergentes como o Brasil, contribuindo para a queda de 11% da taxa de câmbio no ano passado.

Pressões fiscais e eleitorais

Os mais cautelosos alertam que não é preciso muito para afugentar os investidores estrangeiros. Um gatilho seria a deterioração fiscal provocada pelo populismo de Lula em seu empenho por se reeleger em outubro. O aumento dos gastos públicos atrapalha o BC por dois motivos:

  • Primeiro, esse dinheiro aquece o consumo sem que a oferta de bens e serviços cresça no mesmo ritmo.
  • Segundo, à medida que o déficit público cresce, o mercado exige juro mais alto para financiar o governo, estreitando a margem de manobra do BC.

A péssima situação fiscal é o que mantém o juro tão elevado, diz Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. É insustentável.

Expectativas para os cortes e futuro

Ainda assim, para especialistas como Maílson, os sinais inequívocos de desaceleração da economia permitem reduzir a taxa Selic, desde que com parcimônia. Os mais conservadores esperam um corte de 0,25 ponto percentual em março, mas a maioria do mercado aposta em 0,5 ponto.

Com as eleições dominando o segundo semestre, os analistas entendem que a janela para novos cortes se fechará em setembro, quando a Selic deverá estar em 12,25%. Somente depois que se souber o grau de comprometimento do próximo presidente com o necessário ajuste das contas é que será possível definir os próximos passos. A expectativa é de que venha uma política econômica responsável, que não leve o BC e o país a retroceder.

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