Produtividade se torna peça-chave na discussão sobre o fim da escala 6x1
Quando o assunto é a possível eliminação da escala 6x1 — regime em que o trabalhador labora seis dias na semana com apenas um de descanso —, um termo emerge repetidamente nos debates entre economistas e empresários: produtividade. Este conceito tem sido utilizado como um dos principais argumentos contrários à mudança, com alegações de que poderia elevar custos, gerar desemprego e prejudicar o desempenho econômico nacional.
O que é produtividade e como o Brasil se posiciona globalmente
Produtividade do trabalho refere-se à quantidade de bens e serviços que um trabalhador produz, em média, na economia. Conforme definido por Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV Ibre, trata-se de uma métrica fundamental para avaliar a eficiência econômica. Na prática, pode ser exemplificada pelo número de clientes atendidos por um funcionário em um café ou pelas peças montadas em uma fábrica automotiva.
No ranking mundial da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que abrange 175 países, o Brasil ocupa a 86ª posição em produtividade por hora trabalhada, ficando atrás de nações como Chile (53º), Argentina (55º) e México (81º), e logo à frente da China (87º). Na liderança, estão Irlanda, Luxemburgo e Noruega.
Especialistas apontam múltiplos fatores para essa posição desfavorável:
- Baixa qualificação da mão de obra
- Infraestrutura precária
- Ambiente de negócios complicado com excessiva burocracia
- Reduzido nível de investimento, influenciado por juros altos
- Economia baseada em setores de menor valor agregado, como agricultura e serviços pouco complexos
Contudo, é importante destacar que os brasileiros não trabalham menos que os cidadãos de economias avançadas. Segundo a OIT, a média semanal de horas trabalhadas no Brasil é de 38,9 horas, superior à de países como Estados Unidos (37,5 horas), França (35,5 horas) e Alemanha (33,3 horas).
Por que a produtividade é crucial para o desenvolvimento
A produtividade está diretamente ligada ao bem-estar da população. Conforme explica Fernando Holanda, não há nação com alta oferta de bens e serviços onde a produtividade seja muito baixa. Naercio Menezes Filho, professor do Insper, acrescenta que a produtividade influencia o PIB per capita, principal indicador de riqueza por pessoa.
Com o envelhecimento da população brasileira, a demografia deixa de ser um fator favorável ao crescimento. Assim, aumentar a produtividade dos trabalhadores torna-se essencial para elevar o PIB per capita e promover o desenvolvimento futuro do país. Como resumiu Menezes Filho, só existem duas maneiras de o Brasil se tornar mais rico: mais pessoas trabalhando ou maior produtividade individual.
Impactos da redução da jornada de trabalho na produtividade
Estudos recentes têm projetado os efeitos da redução da jornada máxima de trabalho, proposta em discussão no Congresso Nacional. Fernando Holanda estima que diminuir a jornada de 44 para 36 horas semanais reduziria o total de horas trabalhadas em 6,2%, com impacto proporcional no PIB. Para uma jornada de 40 horas, a queda seria de 9%.
Sem cortes salariais equivalentes, essas mudanças elevariam o salário-hora em 10% (para 40 horas) ou 22% (para 36 horas), aumentando os custos para as empresas. Holanda argumenta que tais aumentos dependem de ganhos de produtividade para serem sustentáveis, sob risco de ampliar a informalidade.
Entre 1981 e 2024, a produtividade por hora no Brasil cresceu apenas 0,6% ao ano, enquanto a produtividade total do trabalho avançou 0,3% anualmente. A diferença reflete a redução da jornada trazida pela Constituição de 1988, que cortou a carga máxima de 48 para 44 horas semanais.
Críticas à centralidade da produtividade no debate
Alguns economistas contestam o foco excessivo na produtividade, argumentando que a redução da jornada pode, paradoxalmente, aumentar a eficiência dos trabalhadores. Menos horas laborais podem levar a menor estresse, melhor qualidade de vida e, consequentemente, maior produtividade por hora, compensando parte do aumento de custos.
Joana Simões, do Ipea, observa que aumentos anteriores do salário-mínimo não resultaram nas previsões catastróficas temidas, sendo absorvidos pelo mercado de trabalho. Ela critica estudos que projetam grandes impactos negativos no PIB sem considerar que as empresas podem se reorganizar, reduzir desperdícios e adotar novas tecnologias para mitigar os efeitos.
Menezes Filho destaca ainda que muitas grandes empresas pagam salários abaixo da produtividade real dos trabalhadores — fenômeno conhecido como poder de monopsônio. Um estudo citado por ele indica que os trabalhadores brasileiros recebem apenas 50 centavos por cada dólar de valor que geram para suas empresas. Portanto, elevar o salário-hora aproximaria a remuneração da contribuição produtiva real.
Além disso, a redução da jornada pode ter benefícios sociais, como mais tempo para convivência familiar, o que pode melhorar o desenvolvimento cognitivo das crianças e, no longo prazo, a produtividade futura do país.
Perspectivas para o futuro
Daniel Duque, do FGV Ibre, avalia que o fim da escala 6x1 deve elevar a produtividade por hora, mas reduzir a produtividade total devido à menor quantidade de horas trabalhadas. Ele prevê um efeito negativo pequeno sobre a economia, que não alteraria significativamente a trajetória de desenvolvimento do Brasil.
Para além da discussão sobre jornada, especialistas apontam outras vias para aumentar a produtividade nacional:
- Maior abertura comercial
- Avanços na educação e qualificação profissional
- Reforma tributária que reduza impostos sobre trabalho e consumo
- Estabilidade institucional e fiscal
O debate sobre o fim da escala 6x1 revela, assim, um cenário complexo onde a produtividade serve tanto como argumento de cautela quanto como alvo de críticas por sua centralidade excessiva. Enquanto empresários temem impactos negativos, outros economistas enxergam oportunidades de reorganização que podem beneficiar tanto trabalhadores quanto a economia como um todo.



