O Banco Central (BC) determinou, nesta quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, a liquidação extrajudicial da gestora de investimentos Reag. A medida, que encerra as atividades regulares da empresa e revoga sua autorização para funcionar no Sistema Financeiro Nacional (SFN), congela temporariamente os fundos por ela administrados.
Diferenças cruciais: Reag não é um banco
A decisão do BC traz à tona comparações com episódios recentes, como a liquidação do Banco Master. No entanto, especialistas destacam que o impacto e o procedimento são fundamentalmente distintos. A liquidação de uma gestora de investimentos, como a Reag, não representa um risco sistêmico da mesma magnitude que a de uma instituição bancária.
Ricardo Rocha Neto, sócio-fundador do Abe Advogados e mestre em Direito pela PUC-SP, explica a distinção. Um banco realiza captação de depósitos do público, oferece contas-correntes e opera crédito, atividades centrais para o sistema. Já uma gestora administra fundos e aplicações, sem realizar a captação típica de um banco.
"A liquidação de um banco usualmente gera um significativo impacto sistêmico no mercado – clientes com depósitos, contas e empréstimos podem ficar expostos a grandes perdas ou acionar o FGC", afirma Rocha Neto. "Por outro lado, uma gestora que administra fundos representa, em geral, impacto muito menor ao sistema financeiro".
O que acontece com os investimentos agora?
Um ponto crucial para os investidores é que a liquidação da gestora não significa o fim dos fundos ou a perda automática do dinheiro aplicado. Os fundos de investimento possuem personalidade jurídica própria e são regulados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Eles continuam existindo, apenas com suas operações congeladas momentaneamente.
O processo agora busca definir uma nova instituição financeira que assumirá a gestão desses ativos. "O fundo de investimento pode continuar existindo com novo gestor", esclarece o advogado. A situação é diferente da liquidação bancária, onde um liquidante é nomeado para vender ativos e pagar credores, cenário que envolve risco de calote.
Atenção aos produtos fora do escopo dos fundos
O maior risco, conforme apontam os analistas, está em produtos que não se enquadram como fundos de investimento regulares. Produtos estruturados e operações ligadas diretamente à Reag, especialmente aquelas sob investigação por falta de lastro real ou fraude, podem gerar prejuízos relevantes aos investidores.
O contexto investigativo é relevante. A Reag esteve envolvida na megaoperação policial de 28 de agosto de 2025 que desarticulou uma rede de lavagem de dinheiro ligada à venda de combustíveis adulterados. O grupo, segundo o Ministério Público, lavava recursos para o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa envolvida no tráfico de cocaína para a Europa.
"Neste particular, podem advir efeitos relevantes se os ativos estiverem questionados ou sem lastro real — em especial, casos que estão sendo investigados por fraude envolvendo o Banco Master", finaliza Rocha Neto. Enquanto o risco sistêmico amplo parece contido, a situação serve de alerta para a necessidade de diligência na análise de produtos financeiros complexos.