Alta do petróleo pressiona inflação global e ameaça desacelerar economia brasileira
A escalada do conflito no Oriente Médio disparou o preço do petróleo e ameaça a economia global e brasileira. As consequências das interrupções no fornecimento global se espalham por inúmeras frentes e, nos piores prognósticos, podem estar apenas começando.
Crise do petróleo com características únicas
Após os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, a alta do preço do petróleo voltou a pressionar o diesel, e o conflito na região que concentra algumas das maiores reservas de óleo e gás do planeta segue sem prazo para acabar. "Trata-se de uma crise do petróleo diferente de todas as outras", diz Helder Queiroz, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo e atual coordenador do Grupo de Economia da Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Em 28 de fevereiro, ataques coordenados atingiram instalações militares iranianas e desencadearam uma crise que rapidamente saiu do campo militar e chegou às cadeias globais de suprimento. Em resposta, o Irã bloqueou o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo.
Impacto imediato nos preços
Desde o bloqueio, o fluxo parou completamente. A Agência Internacional de Energia já classificou o caso como a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história. Em quatro semanas, o preço do barril de petróleo tipo Brent saltou de 70 dólares para a casa de 100 dólares, uma alta de 40%.
No Brasil, mais de 40% da energia consumida vem do petróleo ou do gás, e 71% da produção nacional é transportada por caminhão, o que torna a economia local ainda mais exposta a qualquer turbulência no provimento global. "Diversificar a nossa matriz e reduzir os combustíveis fósseis deixou de ser só sobre descarbonização para ser, também, uma questão de segurança energética", diz Heloísa Borges, diretora de estudos do petróleo da Empresa de Pesquisa Energética.
Efeitos em cadeia na economia
O petróleo e o gás estão na base de uma cadeia muito mais ampla do que o tanque do carro ou a bomba de diesel. São matérias-primas para:
- Plásticos e embalagens
- Cosméticos e roupas
- Geração de energia elétrica
- Abastecimento industrial
Com esse nível de penetração dos insumos na economia, as projeções de inflação estão piorando rapidamente no Brasil e no mundo. O Banco Central brasileiro já reagiu ao novo cenário: ao cortar a taxa Selic na semana passada, reduziu os juros de 15% para 14,75% ao ano — menos do que os 14,5% esperados poucas semanas antes.
Impacto nos combustíveis e transporte
O impacto mais imediato da crise está nos combustíveis. De todo o volume que o Brasil consome em derivados de petróleo, metade é diesel. Somada a gasolina, a proporção do que vai para abastecer veículos chega a quase 80%.
Em março, o preço médio do litro do diesel saltou de 6,10 para 7,35 reais, um avanço de 21%, e o da gasolina foi de 6,30 para 6,65 reais, variação de 6%. A pressão só não está pior porque a Petrobras mantém o preço da gasolina congelado em suas refinarias e o governo lançou um pacote bilionário de subsídios.
Agronegócio entre os setores mais vulneráveis
O agronegócio é um dos setores mais vulneráveis. O campo depende do diesel para mover tratores e caminhões, e dos fertilizantes para garantir a produtividade das lavouras — em ambos os casos, a dependência externa é alta. O Brasil importa quase 30% do diesel que consome e mais de 85% dos fertilizantes vêm de fora.
O reflexo já aparece nos preços: a tonelada da ureia, adubo rico em nitrogênio, rompeu a faixa dos 700 dólares no mercado internacional, acumulando valorização de quase 75% em 2026. "Países que são grandes fornecedores de insumos para esses adubos, como o Catar, tiveram suas instalações bombardeadas", diz Marcos Jank, professor do Insper.
Efeitos globais da crise
O avanço dos preços e o risco de desabastecimento já se refletem no cotidiano de diferentes países:
- Na Coreia do Sul, o governo pede à população que reduza o tempo de banho
- No Nepal, famílias enfrentam escassez de gás de cozinha
- Na Índia, até cremações a gás foram suspensas
- No Sudeste Asiático, mais de 40% dos postos de combustíveis fecharam
Os gargalos logísticos agravam o quadro. "As cadeias globais estão à bebra da maior perturbação desde a pandemia e o início da guerra na Ucrânia", disse Carl Skau, do Programa Mundial de Alimentos.
Cenários futuros incertos
O futuro dependerá, em larga medida, da duração da guerra. Se o conflito tiver um desfecho rápido, os preços do petróleo deverão recuar, aliviando a inflação global, inclusive no Brasil. Ainda assim, a tendência é de correção parcial dos custos, mas não de retorno aos níveis anteriores à guerra.
No cenário oposto, com o barril de petróleo se aproximando dos 150 dólares, o risco é de uma recessão global, com fluxos de comércio interrompidos, quedas de consumo e até o aumento da fome em alguns países. "Se a guerra persistir por muito tempo, o mundo não estará apenas diante de um pico de preços, mas de uma reconfiguração duradoura dos fluxos de comércio", afirma Fatih Birol, da Agência Internacional de Energia.
O percurso da economia depende de desfecho que ainda é incerto — e, enquanto não se resolve, a conta segue se espalhando pelo globo, afetando desde o produtor rural até o consumidor final nas cidades brasileiras.



