Paradoxo econômico brasileiro: por que o dinheiro não fecha mesmo com melhora nos indicadores?
Paradoxo econômico: por que o dinheiro não fecha no Brasil?

O paradoxo da economia brasileira: números positivos não se traduzem em bem-estar

O Brasil enfrenta uma situação econômica contraditória: enquanto indicadores macroeconômicos como crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), inflação controlada e menor taxa de desemprego em oito anos apontam para melhorias, a sensação de bem-estar da população não acompanha essa evolução. Segundo análise do cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, em entrevista ao podcast "O Assunto", a explicação reside no conceito de "affordability" – a capacidade real das pessoas de arcar com o custo de vida.

O que é o "affordability" e por que ele importa?

O termo em inglês, que ganhou força no debate político internacional, refere-se à capacidade concreta de uma pessoa ou família de pagar por suas necessidades básicas e desejos de consumo. "O que as pessoas dizem é: 'a minha renda até aumentou, mas o custo de vida associado à minha renda aumentou muito mais'", afirma Nunes, com base em pesquisas qualitativas realizadas em "salas de espelho".

Essa metodologia simula conversas do cotidiano para captar percepções e sentimentos dos eleitores, indo além dos números frios da economia. Ao aprofundar as entrevistas, os pesquisadores identificaram três fatores principais que explicam essa desconexão preocupante.

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Os três pilares do mal-estar econômico

1. Endividamento crescente

Despesas com cheque especial, cartão de crédito e empréstimos consignados têm pressionado dramaticamente o orçamento familiar. "As pessoas estão tendo problemas gravíssimos com cheque especial, cartão de crédito, consignados", destaca Nunes. Esse endividamento compromete uma parcela significativa da renda, impedindo que as famílias sintam os benefícios dos indicadores econômicos positivos.

2. Frustração com o consumo

Mesmo com alguma melhora na renda, muitos brasileiros ainda não conseguem acessar bens e experiências tradicionalmente associados ao bem-estar. A promessa simbólica de "picanha e cerveja" – representando consumo de qualidade – não se concretizou para uma parcela expressiva da população. "O eleitor não encontra bem-estar para vivenciar isso", resume o pesquisador.

3. Impacto silencioso das apostas online

Um fator menos visível, mas igualmente preocupante, é o impacto das chamadas "bets" ou apostas online. Segundo os relatos coletados, o dinheiro gasto em jogos tem corroído silenciosamente a renda familiar, muitas vezes sem que os próprios membros da família percebam. "Os homens estão jogando escondido, perdem dinheiro e não assumem. Esse dinheiro da família está sendo consumido quase sem perceber", alerta Nunes.

Consequências políticas do paradoxo econômico

A combinação desses três elementos – dívidas, consumo frustrado e gastos com apostas – ajuda a explicar por que a conta não fecha no fim do mês, mesmo diante de indicadores positivos. Esse cenário tem impacto direto no comportamento eleitoral, especialmente entre os chamados eleitores independentes.

Esse grupo, que representa aproximadamente 30% do eleitorado e não tem posição política definida, é justamente o foco das pesquisas qualitativas da Quaest. Para esses eleitores, a percepção concreta do custo de vida pesa muito mais do que os dados oficiais da economia. Se o orçamento doméstico não fecha, os avanços macroeconômicos não se convertem em apoio político.

"Por que a economia do número não combina com a percepção? Porque, na prática, a coisa não está fechando a conta", conclui Felipe Nunes. A análise sugere que, sem uma melhora tangível na capacidade das famílias de arcar com suas despesas, o otimismo dos indicadores econômicos continuará desconectado da realidade vivida pelos brasileiros.

O podcast "O Assunto" é produzido por Luiz Felipe Silva, Sarah Resende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stéphanie Nascimento, com colaboração de Catarina Kobayashi neste episódio e apresentação de Natuza Nery. O programa diário do g1 está disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube, somando mais de 168 milhões de downloads desde sua estreia em agosto de 2019.

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