As famílias brasileiras enfrentaram um aumento significativo nos custos do crédito em fevereiro, com destaque alarmante para as taxas do cartão de crédito rotativo. De acordo com as Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas pelo Banco Central nesta segunda-feira (30), a taxa média das concessões de crédito livre para pessoas físicas registrou alta de 1 ponto percentual no mês e impressionantes 5,4 pontos percentuais em 12 meses, alcançando 62% ao ano.
Cartão de crédito rotativo atinge patamar estratosférico
O cenário mais preocupante foi observado no cartão de crédito rotativo, cuja taxa média avançou 11,4 pontos percentuais apenas em fevereiro, chegando à marca de 435,9% ao ano. Esta modalidade se consolida como uma das mais caras do mercado financeiro brasileiro, pressionando ainda mais o orçamento das famílias já endividadas.
Vale destacar que, nos 12 meses encerrados em fevereiro, os juros do cartão rotativo tiveram recuo de 16,7 pontos percentuais para as famílias, mas a alta recente indica reversão preocupante desta tendência. O crédito rotativo é ativado quando o consumidor paga menos que o valor total da fatura do cartão, contraindo automaticamente um empréstimo com juros elevadíssimos sobre o saldo remanescente.
Parcelamento do cartão também sobe expressivamente
Após os 30 dias do período rotativo, as instituições financeiras costumam parcelar a dívida do cartão de crédito. Nesta modalidade de parcelamento, os juros subiram 5,3 pontos percentuais no mês e 16,9 pontos percentuais em 12 meses, atingindo 200,2% ao ano em fevereiro.
Contraste com o crédito para empresas
Enquanto as famílias sofrem com juros crescentes, as empresas experimentaram cenário diferente. Os juros médios nas novas contratações de crédito livre para pessoas jurídicas recuaram 0,1 ponto percentual no mês e subiram apenas 1,1 ponto percentual em 12 meses, alcançando 24,9% ao ano.
Destaca-se neste contexto a redução mensal de 3,1 pontos percentuais e de 1,8 pontos percentuais em 12 meses na taxa média de juros das operações de capital de giro com prazo até 365 dias, que chegou a 22,5% ao ano. Esta queda foi determinada principalmente pela redução da taxa média de juros do capital de giro com prazo inferior a 365 dias.
Diferença entre crédito livre e direcionado
É fundamental compreender a distinção entre crédito livre e direcionado no sistema financeiro brasileiro. No crédito livre, os bancos têm autonomia para emprestar recursos captados no mercado e definir livremente as taxas de juros cobradas dos clientes.
Já o crédito direcionado possui regras estabelecidas pelo governo e é destinado principalmente aos setores habitacional, rural, de infraestrutura e ao microcrédito. Para pessoas físicas, a taxa do crédito direcionado ficou em 10,8% ao ano em fevereiro, com redução de 0,3 ponto percentual em relação a janeiro.
Panorama geral dos juros bancários
Considerando todos os recursos, tanto livres quanto direcionados, para famílias e empresas, a taxa média de juros das concessões em fevereiro aumentou 0,3 ponto percentual no mês e 2,6 pontos percentual em 12 meses, atingindo 33% ao ano.
Esta alta dos juros bancários acompanha o ciclo de elevação da taxa básica de juros da economia, a Selic, atualmente definida em 14,75% ao ano pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central. A Selic é o principal instrumento utilizado pela autoridade monetária para controlar a inflação no país.
Spread bancário também em alta
Além das taxas de juros, o spread bancário apresentou alta de 0,5 ponto percentual no mês e 2,8 pontos percentual em 12 meses. Este indicador mede a diferença entre o custo de captação dos recursos pelos bancos e as taxas médias cobradas dos clientes, representando a margem que cobre custos operacionais, riscos de inadimplência, impostos e, finalmente, o lucro das instituições financeiras.
Expansão do crédito e aumento do endividamento
Em fevereiro, as concessões de crédito totalizaram R$ 602,3 bilhões. O estoque total de empréstimos concedidos pelos bancos do Sistema Financeiro Nacional alcançou R$ 7,145 trilhões, com crescimento de 0,4% em relação a janeiro.
Este resultado decorreu principalmente da expansão de 0,6% na carteira de crédito para famílias, cujo saldo fechou o mês em R$ 4,491 trilhões. Já o crédito ampliado ao setor não financeiro - que inclui empresas, famílias e governos - alcançou R$ 21,043 trilhões, com aumento de 1,1% no mês.
Inadimplência em trajetória ascendente
A situação de endividamento das famílias apresenta sinais de deterioração. A inadimplência - atrasos acima de 90 dias - subiu 0,2 ponto percentual no mês e 1 ponto percentual em 12 meses, registrando 4,3% em fevereiro. Entre as pessoas físicas, este indicador chegou a 5,2%, enquanto para pessoas jurídicas ficou em 2,6%.
O endividamento das famílias - relação entre o saldo das dívidas e a renda acumulada em 12 meses - ficou em 49,7% em janeiro, com estabilidade no mês, mas aumento de 1,1% em 12 meses. Excluindo o financiamento imobiliário, que consome parcela considerável da renda familiar, o endividamento ficou em 31,3% no primeiro mês do ano.
Já o comprometimento da renda - relação entre o valor médio para pagamento das dívidas e a renda média apurada no período - alcançou 29,3% em janeiro, com aumento de 0,1% na passagem do mês e 1,6% em 12 meses. Estes indicadores são calculados com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, apresentando defasagem temporal maior que outros dados creditícios.
Cenário macroeconômico e perspectivas
O Banco Central mantém atenção redobrada ao cenário econômico, especialmente diante das incertezas provocadas pelo conflito no Oriente Médio. Após período prolongado com Selic em 15% ao ano, a taxa básica foi reduzida em 0,25 ponto percentual na última reunião do Copom, mas a autoridade monetária não descarta rever este ciclo de baixa caso seja necessário.
O próximo encontro do Comitê de Política Monetária para definir a Selic ocorrerá em abril, quando serão avaliados os impactos da política monetária sobre a inflação e o crescimento econômico. Enquanto isso, as famílias brasileiras continuam enfrentando o peso crescente dos juros elevados, especialmente no uso do cartão de crédito rotativo.



