Guerra no Oriente Médio já afeta preços de commodities essenciais em escala global
A escalada militar envolvendo Irã, Israel e os Estados Unidos está gerando efeitos econômicos que vão muito além do petróleo. O conflito no Oriente Médio está interrompendo cadeias globais de produção e transporte, elevando os preços de uma série de produtos essenciais para a economia mundial, desde fertilizantes e metais industriais até açúcar e gás hélio.
Impacto imediato no mercado de alumínio e rotas marítimas
Embora o mercado de energia seja o mais sensível a conflitos na região, analistas apontam que a interrupção de rotas marítimas e de centros industriais estratégicos pode provocar um choque mais amplo nas cadeias de suprimento globais. Grande parte dessas tensões gira em torno do Estreito de Ormuz, corredor marítimo entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, por onde passa uma parcela significativa do comércio global de petróleo e outras matérias-primas.
Desde o início do conflito, o tráfego na região tem sido afetado por ameaças militares e riscos de segurança. A continuidade ou não dessas interrupções dependerá da duração da guerra. Um cessar-fogo permitiria a reabertura gradual de portos, aeroportos e instalações industriais na região. O cenário, porém, permanece incerto, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, emitindo sinais contraditórios sobre a possibilidade de reduzir a escalada.
Um dos setores mais afetados é o do alumínio. O preço do metal atingiu o nível mais alto em quase quatro anos após interrupções em remessas provenientes de produtores do Golfo. Fundições em países como Catar e Bahrein suspenderam entregas, o que levou compradores a buscar fornecedores alternativos na Ásia.
Efeitos no mercado de açúcar e fertilizantes
A guerra também pode alterar o mercado de açúcar e combustíveis no Brasil, maior produtor mundial de cana-de-açúcar. A planta pode ser usada tanto para produzir açúcar quanto etanol, combustível amplamente utilizado em carros no país. Quando os preços da energia sobem, como ocorre em períodos de alta do petróleo, o etanol tende a se tornar mais lucrativo.
Desde o início do conflito, a cotação do combustível subiu cerca de 10% no mercado internacional. Esse movimento pode levar usinas brasileiras a direcionar uma parcela maior da próxima safra para a produção de combustível, reduzindo a oferta global de açúcar.
Outro setor crítico é o de fertilizantes. Cerca de um terço do comércio global de ureia, o principal fertilizante nitrogenado, normalmente passa pelo Estreito de Ormuz. A substância é produzida em grande escala no Oriente Médio porque o gás natural é uma matéria-prima essencial para sua fabricação.
Com o transporte afetado e algumas plantas interrompendo operações, o preço da ureia já disparou até 35% desde o início da guerra. O aumento ocorre justamente quando agricultores em diversas regiões do planeta começam a preparar o plantio da próxima safra.
Enxofre e gás hélio também sofrem impactos
O enxofre também entrou na lista de produtos afetados. O material, um pó amarelo obtido durante o refino de petróleo e gás, é fundamental para a produção de fertilizantes e para diversos processos industriais, como a fabricação e o tratamento de metais.
Quase metade da oferta global encontra-se atualmente do lado do Golfo Pérsico no Estreito de Ormuz, o que cria risco de escassez caso o bloqueio persista. A consequência pode se espalhar por várias cadeias produtivas.
Até mesmo setores de alta tecnologia foram atingidos. A produção de hélio, gás essencial para equipamentos médicos, indústria de semicondutores e pesquisas científicas, foi afetada após um ataque iraniano atingir instalações industriais no Ras Laffan Industrial City, complexo energético localizado no Catar.
O país responde por cerca de um terço da oferta global de hélio, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Com as operações comprometidas e o transporte marítimo ameaçado, analistas estimam que mais de um quarto da oferta mundial do gás pode ficar indisponível se o bloqueio no Estreito de Ormuz se prolongar.
Risco inflacionário global e conclusão
Para economistas, o risco mais amplo é que a combinação de choques em várias commodities simultaneamente reforce pressões inflacionárias ao redor do mundo. Custos mais altos de matérias-primas tendem a se espalhar pela economia, encarecendo desde alimentos até produtos industriais e eletrônicos.
Em outras palavras, embora o petróleo seja o símbolo clássico das crises no Oriente Médio, a guerra atual mostra que o impacto de conflitos na região pode atingir praticamente todas as engrenagens da economia global. Se o confronto se prolongar, os efeitos podem chegar rapidamente ao bolso de consumidores em vários países.
