Conflito no Oriente Médio intensifica desafios históricos do setor industrial nacional
O cenário já desafiador para a indústria brasileira ganhou contornos ainda mais complexos com a guerra no Irã, conforme destacou Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Durante participação no VEJA Fórum de Infraestrutura, realizado em São Paulo, o executivo pintou um quadro preocupante sobre as perspectivas do setor produtivo nacional.
Contexto doméstico já era adverso antes do conflito internacional
A indústria brasileira enfrenta há décadas o que se convencionou chamar de "custo Brasil" — um conjunto de fatores que encarece excessivamente a produção no país. Segundo Muniz, esse custo adicional chega a impressionantes 300 bilhões de reais anuais, valor que deixa de ser faturado pelas empresas devido a uma série de obstáculos estruturais.
Entre os principais componentes desse custo elevado estão:
- Taxa básica de juros em 14,75% ao ano
- Excesso de burocracia e custos com licenças
- Impostos elevados em múltiplas esferas
- Preços altos da energia elétrica e do gás natural
Energia e gás natural: problemas crônicos que se agravam
A CNI tem alertado consistentemente sobre os preços exorbitantes do gás natural no Brasil, que a entidade classifica como "os mais elevados do mundo". Um levantamento detalhado mostra que o custo do gás natural brasileiro equivale a quase o dobro do praticado na Espanha e chega a ser seis vezes maior que o preço do gás canadense.
"O gás natural é um grande problema para a indústria", afirmou Muniz durante o evento. O consumo industrial dessa fonte energética está estagnado há uma década, reflexo direto dos custos proibitivos.
No setor de energia elétrica, a situação não é mais animadora. A CNI critica veementemente o fato de que impostos e encargos diversos representam 45% do preço total pago pelos consumidores industriais, onerando ainda mais a produção nacional.
Guerra no Irã: fator externo que complica o cenário
"Estamos em um momento difícil para a indústria nacional por causa da guerra", declarou o diretor da CNI, referindo-se ao conflito no Irã. O executivo explicou que o cenário geopolítico tenso tende a pressionar ainda mais os custos de produção, especialmente em setores dependentes de commodities energéticas e cadeias logísticas internacionais.
A combinação entre os desafios domésticos históricos e as novas pressões internacionais está acelerando um processo preocupante: a desindustrialização do Brasil. Muniz expressou preocupação genuína com o futuro do ambiente industrial nacional, questionando o que acontecerá com a capacidade produtiva do país nos próximos anos.
Investimentos em infraestrutura: ponto de esperança
Apesar do cenário desafiador, o executivo encontrou motivos para otimismo no aumento dos investimentos em infraestrutura registrados nos anos recentes. O dado mais animador, segundo sua análise, é que 70% desses investimentos têm origem no setor privado.
"A boa notícia é que quem tem sustentado o investimento em infraestrutura é o setor privado", destacou Muniz. Ele atribui parte desse avanço à Lei de Concessões, implementada há três décadas, que criou um marco regulatório mais seguro para investidores.
Para continuar avançando, a CNI defende políticas públicas prioritárias como:
- Ampliação dos modais de transporte com investimentos em ferrovias e hidrovias
- Autonomia financeira das agências reguladoras
- Continuação do apoio do BNDES ao setor produtivo
A mensagem final do diretor da CNI é clara: enquanto o Brasil não resolver seus problemas estruturais de competitividade — agravados agora por fatores internacionais —, a indústria nacional continuará enfrentando ventos contrários que ameaçam sua capacidade de crescimento e inovação.



