Especulação com guerra eleva inflação no atacado e pressiona preços no Brasil
Guerra no Golfo eleva inflação e especulação no atacado brasileiro

Especulação com guerra eleva inflação no atacado e pressiona preços no Brasil

Enquanto o IBGE se prepara para divulgar o IPCA de março nesta sexta-feira, os dados do IGP-DI de março, divulgados ontem pela FGV, já revelam o tamanho da especulação nos preços do atacado, impulsionada pela guerra no Golfo e suas repercussões globais. A expectativa do mercado financeiro é de uma taxa de inflação superior aos 0,70% registrados em março, com a mediana da Pesquisa Focus de 2 de abril já apontando para esse patamar.

Impacto da guerra nos preços e no cessar-fogo

A guerra no Golfo, com ataques de Israel no Líbano incluindo bairros de Beirute, e as ameaças do Irã de romper as negociações de cessar-fogo – que teriam um encontro decisivo em Islamabad neste sábado – criaram um cenário de incerteza que alimenta a especulação. Os Estados Unidos seriam representados pelo vice-presidente J. D. Vance nas tratativas.

O contrato futuro do petróleo Brent para entrega em junho, que chegou a US$ 118 há duas semanas e caiu para US$ 94 com o anúncio do cessar-fogo no dia 8, voltou a subir, sendo negociado a US$ 98,85 por volta das 12:30 (horário de Brasília), com alta de 4,33%. Isso demonstra a desconfiança dos agentes financeiros quanto ao avanço das negociações para uma trégua na região.

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O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, insistiu que o cessar-fogo foi "totalmente coordenado" com Israel, mas publicações como "The Economist" e "The New York Times" sugerem o contrário, destacando que Israel não alcançou seus objetivos no Irã e que os ataques no Líbano ameaçam o frágil acordo.

Inflação dispara no atacado brasileiro

Os dados do IGP-DI mostram que a especulação correu solta nos preços do atacado, com potencial de contaminação no varejo, apesar dos esforços do governo Lula e da Petrobras para conter os impactos domésticos da guerra. A Petrobras, exportadora líquida de petróleo, garante cerca de 90% da gasolina do país, que importa aproximadamente 25% de óleo diesel, GLP e querosene de aviação.

Segundo análise da consultoria 4intelligence, o IGP-DI saltou de uma taxa negativa de 0,84% em fevereiro para um aumento de 1,14% em março. O grande peso veio dos preços no atacado (60% do índice), que subiram 0,61% em março, após queda de 1,21% em fevereiro.

A especulação foi generalizada:

  • No IPA agropecuário, que subiu 2,44%, puxado por altas em soja, milho, café, tomate, batata, leite "in natura" e suínos.
  • Nos preços industriais, com destaque para minério de ferro (alta de 3,33%), alimentos industrializados (0,10%, com laticínios subindo 4,02%), produtos derivados de petróleo (2,24%) e produtos químicos, pressionados por adubos e fertilizantes (3,68%), ureia (8,76%) e resinas e elastômeros (6,63%).

Um vetor baixista foi minerais metálicos não-ferrosos, que recuaram 4,96%, e a moderação da metalurgia básica. Detalhe crucial: a demanda por fertilizantes só se torna importante de maio em diante para o plantio após agosto, indicando que a especulação se antecipou ao pior cenário.

Queda do dólar e fluxo cambial sob pressão

O dólar segue em queda livre diante das principais moedas, com o real se valorizando 0,52% e a moeda americana cotada a R$ 5,0700, a menor desde fevereiro de 2024. Em seminário no Banco Central, economistas das instituições que respondem à Pesquisa Focus foram premiados por acertos em 2025 e expuseram visões sobre a conjuntura.

A visão média é de que, embora a economia brasileira esteja bem preparada para choques, há pressões inflacionárias que demandam cautela das autoridades monetárias globalmente. No Brasil, prevalece a expectativa de queda de apenas 0,25% na Selic, para 14,50% ao ano em 29 de abril, com risco de agravamento da crise do crédito das famílias se o mercado de trabalho esfriar.

Alguns analistas ainda confiam que um arranjo mínimo de trégua na reunião de sábado possa dar espaço para o Banco Central baixar a Selic em meio ponto, para 14,25%. Em março, o fluxo cambial teve saída líquida de US$ 6,3 bilhões, com entradas comerciais de US$ 7,7 bilhões e saídas financeiras de US$ 14,1 bilhões, refletindo aversão ao risco devido ao conflito.

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Para o Itaú, o conflito impõe riscos em duas direções: a alta do petróleo favorece a balança comercial, mas a maior aversão ao risco global pode restringir fluxos de capitais para economias emergentes, determinando a taxa de câmbio – variável chave que ajudou o Banco Central a desinflacionar a economia em 2025.