Guerra entre EUA e Irã impulsiona preço do petróleo e impacta economia brasileira
A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, que tem tensionado o controle do trânsito marítimo no estratégico Estreito de Hormuz, está provocando uma disparada significativa no preço do petróleo no mercado internacional. Esse cenário geopolítico turbulento, que afeta cerca de 20% da produção mundial de petróleo que passa por aquela via, está gerando efeitos ambíguos para a economia brasileira, conforme análise detalhada da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico vinculado ao Senado Federal.
Impacto fiscal: redução do déficit público em perspectiva
Em relatório publicado nesta quinta-feira (16), a IFI projeta que o aumento do preço do barril do petróleo tipo Brent pode resultar em um alívio considerável para as contas públicas brasileiras. Segundo as estimativas preliminares da instituição, o choque de preços poderia reduzir o déficit primário em até 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB), representando uma melhora substancial nas projeções fiscais.
Sem o impacto do aumento do petróleo, a IFI projeta um resultado negativo de 0,7% do PIB para 2026. Contudo, caso o barril se mantenha em torno de US$ 97 até o final deste ano, o déficit cairia para aproximadamente 0,1% do PIB. Para 2027, a estimativa sem o choque de preços é de um resultado primário negativo de 1,2% do PIB, que poderia ser reduzido para 0,6% caso o Brent se estabilize ao redor de US$ 108.
Mecanismos de transmissão: como o petróleo caro beneficia as contas públicas
O diretor-executivo da IFI, Marcus Pestana, explica que o choque favorece a arrecadação governamental por dois canais principais. Diretamente, através do aumento da cobrança de impostos, royalties e participações do Estado em empresas do setor petrolífero. Indiretamente, através da alta da inflação que amplia a base tributária, gerando receitas adicionais para o governo federal.
"Não se pode cravar qual será o comportamento do preço do barril e dos derivados nem os efeitos sobre a inflação global e sua transmissão para cada país", ressalta Pestana, destacando que as estimativas ainda são preliminares e cercadas de significativa incerteza.
Contrapontos e medidas mitigadoras
Os ganhos fiscais poderiam ser ainda mais expressivos caso o governo brasileiro não tivesse adotado medidas para mitigar os impactos da alta dos combustíveis na população. Foram concedidos subsídios ao diesel e ao GLP (gás de cozinha), além do adiamento de cobranças tarifárias sobre empresas aéreas, ações que reduzem o potencial arrecadatório do aumento do petróleo.
Por outro lado, se o preço do barril permanecer elevado por um período prolongado, a inflação deve começar a pressionar as despesas públicas a partir de 2027, especialmente aquelas indexadas ao salário mínimo. Benefícios previdenciários, BPC (Benefício de Prestação Continuada), auxílio-desemprego e abono salarial são algumas das rubricas que poderiam sofrer ajustes significativos.
Metodologia diferenciada e cenário oficial
A IFI adota uma metodologia mais abrangente em suas projeções, incluindo todos os gastos do governo em seus cálculos. Já nas contas oficiais, como as divulgadas na quarta-feira (15), parte dos precatórios, investimentos em Defesa e despesas extraordinárias do fundo social para educação e saúde ficam fora do cálculo, conforme permite uma emenda constitucional.
Para o crescimento da dívida pública, no entanto, o que realmente importa é o gasto efetivo realizado. Por essa razão, a instituição fiscal independente inclui todas as despesas em suas projeções, oferecendo uma visão mais completa da situação fiscal brasileira.
O Ministério do Planejamento, ao apresentar o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 nesta quarta-feira, optou por desconsiderar os efeitos da guerra sobre o resultado fiscal, diante das incertezas do cenário geopolítico atual. A disputa entre Estados Unidos e Irã pelo controle do Estreito de Hormuz continua sendo um fator de instabilidade que pode alterar significativamente todas as projeções econômicas nos próximos meses.



