Inflação brasileira sobe com pressão da guerra e ameaça climática
As projeções de inflação no Brasil enfrentam uma onda significativa de revisões para cima, impulsionadas pelos impactos do conflito militar entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciado em 28 de fevereiro. Este cenário geopolítico provocou um salto abrupto nas cotações internacionais do petróleo, pressionando diretamente os custos dos combustíveis no mercado doméstico. Paralelamente, analistas econômicos destacam um risco adicional para a inflação brasileira: a ameaça concreta do evento climático El Niño no segundo semestre deste ano, que, dependendo de sua intensidade, pode dificultar a produção agrícola e elevar os preços dos alimentos.
Projeções do mercado financeiro em ascensão contínua
De acordo com o boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, a mediana das previsões do mercado financeiro para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo em 2026 subiu pela quarta semana consecutiva. A estimativa aumentou de 4,31% para 4,36%, aproximando-se perigosamente do teto da meta de inflação, estabelecido em 4,5%. Esta projeção vinha de um período de baixa no início do ano, chegando a marcar 3,91% antes dos desdobramentos bélicos no Oriente Médio.
"É um cenário de pressão de preços muito evidente e que mudou radicalmente em relação a fevereiro", afirma o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale, que projeta IPCA de 4,2% em 2026. "Por mais que a guerra acabe nas próximas semanas, demora até os preços do petróleo voltarem a patamares anteriores", acrescenta o especialista, enfatizando a persistência dos efeitos inflacionários.
Conflito internacional e volatilidade no preço do petróleo
Nesta terça-feira, dia 7, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recuou novamente em sua postura e aceitou uma proposta feita pelo Paquistão para um cessar-fogo de duas semanas. O líder americano justificou sua decisão com base no compromisso de que o Irã reabra o estratégico estreito de Hormuz, por onde transita aproximadamente 20% do petróleo mundial, durante o período de trégua.
Desde o início do conflito, o barril de petróleo Brent, referência global, saltou de US$ 72 para acima de US$ 110. Na noite desta terça, com o anúncio do cessar-fogo, os preços recuaram para a casa de US$ 95, mas permanecem em patamar elevado. Esta volatilidade preocupa o presidente Lula em um ano eleitoral, levando o governo a anunciar, na segunda-feira, dia 6, a criação de uma subvenção extra para o óleo diesel e o gás de cozinha, além de zerar as alíquotas de PIS/Cofins sobre o biodiesel e o querosene de aviação.
Impactos diretos nos combustíveis e cadeia produtiva
Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis indicam que, desde o início do confronto no Irã, os preços médios da gasolina comum e do diesel S-10 aumentaram cerca de 8% e 24% no Brasil, refletindo principalmente repasses promovidos por importadores privados. Além do efeito imediato nos combustíveis, há um temor generalizado de repasses para produtos como alimentos, já que o diesel é um insumo crucial da cadeia produtiva agrícola.
O transporte de fertilizantes, outra matéria-prima fundamental para o agronegócio, também tem sido severamente afetado pela guerra. "É um cenário preocupante", afirma o economista Rodolpho Sartori, da agência classificadora de risco Austin Rating. Após o início do conflito, a estimativa da Austin para o IPCA deste ano saiu de 3,8% para 4,38%, com alguns analistas apostando até em uma inflação acima do teto de 4,5%.
El Niño representa risco climático adicional
Outra instituição que revisou suas projeções é o banco Daycoval, que elevou sua estimativa de inflação para este ano de 3,8% para 4,2%. "Dado o cenário externo mais adverso com impactos potenciais sobre o petróleo e probabilidade crescente de El Niño no segundo semestre, adicionamos o viés de alta para esta projeção", declarou o banco em relatório divulgado na quinta-feira, dia 2.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal do Oceano Pacífico na região da linha do Equador. Tradicionalmente, aumenta o risco de seca nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, enquanto favorece chuvas intensas no Sul. Uma nota técnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais concluiu que há mais de 80% de probabilidade de ocorrência do fenômeno na segunda metade de 2026, possivelmente a partir do trimestre de agosto a outubro.
Possíveis reflexos na política monetária e taxa de juros
De acordo com analistas, o aumento nas previsões para a inflação pode reduzir significativamente a intensidade do ciclo de cortes na taxa básica de juros do Brasil, a Selic, que atualmente está em 14,75%. A mediana das estimativas do mercado indica Selic de 12,5% ao final do ano, conforme o Focus.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, defendeu na segunda-feira o que chamou de "cautela" da instituição na condução da política de juros. "Eu acho que usei a palavra cautela desde que entrei no Banco Central mais vezes do que usei em toda a minha vida antes de entrar no Banco Central. Mas, no Banco Central, a palavra cautela vem acompanhada da palavra serenidade. Nunca está sozinha", disse Galípolo em discurso no qual abordou o cenário da economia global, marcado pelos reflexos da guerra.
O economista Fábio Romão, sócio da consultoria Logos Economia, passou a prever IPCA de 4,8% em 2026, contra 4% antes da guerra. "Mesmo que o petróleo arrefeça até o final do ano, e a gente acha que isso é o mais provável, o mal já está feito. Atrapalhou a formação de muitos preços", conclui Romão, destacando a persistência dos efeitos inflacionários mesmo após possíveis melhorias no cenário internacional.



