Conflito Geopolítico Redimensiona Cenário Econômico Brasileiro
A escalada das tensões entre Israel, Estados Unidos e Irã, que mantém o preço do barril de petróleo Brent acima de US$ 110, está gerando ondas de impacto na economia brasileira. O IPCA-15 de março já registrou alta de 0,44%, e consultorias projetam inflação mensal próxima de 0,76%. Diante desse cenário, grandes instituições financeiras revisam suas projeções para a taxa básica de juros e a inflação oficial.
Itaú e Bradesco Ajustam Projeções com Viés de Alta
O Itaú Unibanco alterou seu viés para o IPCA de 2026, elevando a projeção de 3,8% e sinalizando cautela no afrouxamento monetário. Em vez de uma queda de 0,50 pontos percentuais na reunião de abril, o banco prevê que a Selic deve recuar para 14,50% em 29 de abril. "O conjunto de informações reduz o espaço para uma aceleração do ritmo de afrouxamento monetário", afirma a instituição.
O Bradesco, por sua vez, destaca que a surpresa inflacionária está concentrada em passagens aéreas e alimentos, mas ressalta os riscos geopolíticos. "A geopolítica segue como maior risco para nosso cenário de inflação neste ano", sublinha o banco, que mantém previsões de IPCA em 3,8% e Selic em 12,00% para 2026, porém com alertas sobre a persistência dos custos de combustíveis e fertilizantes.
Análise da 4intelligence Aponta Inflação em Ascensão
A consultoria 4intelligence elevou sua projeção para o IPCA de março para 0,76%, citando aceleração em alimentação e combustíveis. Para o ano de 2026, a previsão foi ajustada de 4,3% para próximo de 4,5%, incorporando os choques recentes nos preços de derivados de petróleo e seus efeitos em cadeia. A expectativa para abril é de alta de 0,50%, com moderação parcial, mas impactada por reajustes tarifários de energia elétrica e medicamentos.
Em maio, a consultoria projeta o início de uma distensão das incertezas externas, o que poderia aliviar as pressões sobre alimentos e petróleo. No entanto, a energia elétrica deve permanecer como destaque, com a possível ativação da bandeira amarela nas contas de luz.
Juros Mais Altos e Impacto no Desemprego
A cautela do Banco Central em reduzir os juros, evidenciada no Relatório de Política Monetária, pode agravar a situação financeira de famílias e empresas. Economistas alertam que essa postura tende a aumentar o nível de desemprego, uma má notícia em ano eleitoral. Dados do IBGE mostram que a taxa de desocupação subiu para 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, após ter caído para 5,1% em dezembro.
O Departamento de Pesquisas Econômicas do Bradesco observa que o mercado de trabalho apresenta "sinais discretos de enfraquecimento", mas ainda sustenta o consumo das famílias. O banco mantém expectativa de crescimento econômico de 1,5% em 2025, com expansão do consumo em 2,1%.
Guerra Afeta Fluxo de Capitais para o Brasil
Os dados do Banco Central revelam uma deterioração significativa nos fluxos financeiros devido ao conflito geopolítico. Entre 18 de fevereiro e 24 de março, houve uma redução de US$ 6,4 bilhões nos saldos totais, com o fluxo financeiro registrando queda abrupta de mais de US$ 9,5 bilhões. O saldo global, que era positivo em US$ 1,631 bilhão em fevereiro, transformou-se em um déficit de US$ 4,769 bilhões.
Essa mudança explica a ênfase dada pelo Banco Central às contas de Serviços e Rendas no Balanço de Pagamentos, destacando a vulnerabilidade externa em um contexto de turbulência internacional.
Outras Notas do Cenário Econômico
Liquidação Extrajudicial: O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento S.A. e suas controladas, que integravam um conglomerado de pequeno porte, representando apenas 0,009% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional em dezembro de 2025.
Diplomacia Internacional: Jornais como o New York Times questionam a abordagem diplomática do governo Trump frente ao impasse com o Irã, descrevendo-a como improvisada e envolvendo uma mistura de emissários com visões conflitantes.
Em resumo, a guerra no Oriente Médio está redefinindo as projeções econômicas para o Brasil, com inflação mais alta, juros em queda mais lenta e impactos negativos no fluxo de capitais e no mercado de trabalho, configurando um cenário desafiador para o ano de 2026.



