Grupo empresarial dos EUA alerta para expansão industrial da China
EUA alertam para rápida expansão industrial da China

A Câmara de Comércio dos Estados Unidos emitiu um alerta incomum sobre o avanço industrial da China, afirmando que os países ocidentais estão ficando sem tempo para reduzir a dependência de cadeias produtivas controladas por Pequim. O aviso consta em um relatório produzido pelo Rhodium Group, consultoria especializada em China, que aponta uma nova fase da política industrial chinesa, caracterizada por subsídios massivos, expansão agressiva de empresas no exterior e domínio crescente sobre setores considerados estratégicos para a economia e segurança nacional.

Política industrial total

Segundo o estudo, a China deixou de concentrar seus esforços apenas em áreas específicas, como ocorreu no programa “Made in China 2025”, e passou a adotar uma espécie de “política industrial total”, com forte intervenção estatal em praticamente toda a economia, incluindo manufatura avançada, minerais críticos, robótica, inteligência artificial, energia limpa e serviços tecnológicos. O documento foi divulgado às vésperas da visita do presidente Donald Trump a Pequim para uma reunião de dois dias com Xi Jinping, em meio ao agravamento das tensões comerciais entre as duas maiores economias do planeta.

China amplia domínio sobre setores estratégicos

O relatório afirma que a participação chinesa em cadeias produtivas consideradas críticas cresceu rapidamente nos últimos anos, impulsionada por investimentos estatais, crédito subsidiado e políticas industriais coordenadas pelo governo central. A preocupação americana vai muito além de produtos baratos. Segundo analistas ouvidos pelo Financial Times, Pequim passou a ameaçar justamente os setores onde Europa, Japão e Estados Unidos ainda mantinham alguma vantagem tecnológica, como máquinas industriais, química fina, automóveis, robótica e equipamentos de alta precisão.

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Nos últimos anos, empresas chinesas ampliaram participação no mercado de veículos elétricos, painéis solares, baterias e equipamentos industriais. Agora, a expansão alcança também segmentos ligados à biotecnologia, fusão nuclear, semicondutores e interfaces cérebro-computador. O plano quinquenal mais recente da China incluiu, pela primeira vez, metas explícitas para tecnologias consideradas emergentes e de fronteira, sinalizando que Pequim pretende ampliar sua influência sobre toda a infraestrutura industrial do futuro.

Superávit comercial explode e alimenta temor de novo “choque chinês”

O avanço exportador chinês preocupa governos e indústrias ocidentais sobretudo porque ocorre em meio à desaceleração da economia doméstica do país. Com consumo interno fraco e crise persistente no setor imobiliário, Pequim intensificou ainda mais a aposta na indústria e nas exportações como motor de crescimento. Segundo o relatório do Rhodium Group, o superávit comercial chinês em bens praticamente dobrou desde 2019 e chegou a cerca de US$ 2 trilhões (R$ 10,2 trilhões).

Economistas passaram a chamar o fenômeno de “China Shock 2.0”, em referência à onda anterior de produtos chineses baratos que transformou a indústria americana nos anos 2000. A diferença agora é que a China deixou de competir apenas em manufaturas de baixo custo e passou a disputar espaço em setores de maior valor agregado e intensidade tecnológica. Segundo dados da Reuters, exportadores chineses vêm demonstrando resiliência mesmo diante da escalada tarifária promovida pelos Estados Unidos. Muitas empresas conseguiram absorver parte dos custos, diversificar mercados e manter competitividade graças ao controle quase completo das cadeias de fornecimento dentro da própria China.

Minerais críticos viram centro da disputa econômica

Um dos principais focos da tensão entre Washington e Pequim envolve os minerais críticos, fundamentais para baterias, chips, data centers, equipamentos militares e tecnologias ligadas à inteligência artificial. Hoje, a China domina boa parte do processamento mundial de terras raras e minerais estratégicos usados pela indústria de alta tecnologia. Relatórios recentes do Council on Foreign Relations e da S&P Global apontam que os EUA dificilmente conseguirão competir diretamente com a escala chinesa na mineração e refino desses materiais.

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O governo Trump passou a tratar essa dependência como uma ameaça à segurança nacional. Nos últimos meses, Washington lançou iniciativas para ampliar acordos com aliados e estimular cadeias alternativas de fornecimento fora da China. Mesmo assim, analistas avaliam que a vantagem chinesa continua difícil de ser revertida. Além da capacidade industrial, Pequim controla etapas consideradas mais difíceis da cadeia produtiva, como refino, produção de ímãs e processamento químico de minerais estratégicos.

Europa e Ásia aparecem como mais vulneráveis

O relatório da Câmara de Comércio americana afirma que os riscos são especialmente altos para economias industriais exportadoras, como Alemanha, Japão e Coreia do Sul. Segundo especialistas ouvidos pelo FT, a velocidade do avanço chinês ameaça diretamente o núcleo industrial desses países, que tradicionalmente lideravam segmentos de engenharia avançada e manufatura sofisticada. Na Europa, executivos do setor industrial demonstram preocupação crescente com o excesso de capacidade chinesa e a entrada de produtos subsidiados em setores como veículos elétricos, química e equipamentos industriais. A valorização do euro frente ao yuan também ampliou a competitividade chinesa no continente europeu.

Tarifas não conseguiram reduzir dependência

Apesar das sucessivas rodadas de tarifas impostas pelos Estados Unidos desde o primeiro governo Trump, a dependência ocidental das cadeias chinesas continua elevada. Empresas americanas seguem dependentes de componentes, metais processados, baterias e equipamentos fabricados na China. Em muitos casos, não existem alternativas competitivas em escala suficiente. Segundo especialistas, as tarifas acabaram acelerando um movimento de diversificação parcial para países do Sudeste Asiático, América Latina e Índia, mas sem romper o núcleo industrial chinês.

Ao mesmo tempo, companhias chinesas ampliaram fortemente sua presença internacional. O relatório aponta que, em 2024, as 500 maiores empresas chinesas passaram a obter em média 47% de sua receita fora da China, percentual semelhante ao das companhias americanas.

Disputa redefine economia mundial

A avaliação de analistas é que a rivalidade entre Estados Unidos e China entrou em uma nova fase. Mais do que uma guerra comercial baseada em tarifas, a disputa passou a envolver controle de cadeias produtivas, domínio tecnológico e capacidade industrial. O temor em Washington e em capitais europeias é que a China consolide uma posição dominante justamente nos setores que devem definir a próxima etapa da economia mundial, incluindo inteligência artificial, energia limpa, automação industrial e infraestrutura digital. A questão central deixou de ser apenas comércio exterior e passou a envolver soberania econômica e segurança estratégica.