Diesel registra alta de quase 20% nos postos de combustível
A recente valorização das ações preferenciais PETR4 da Petrobras na Bolsa de Valores (B3) reflete diretamente a alta da principal commodity da estatal: o petróleo. Em razão do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, o setor petrolífero mundial, no qual a companhia brasileira está inserida, vive uma enorme disparada de preços que impacta o consumidor final.
Conflito no Oriente Médio impulsiona preços e ações
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil enfatizam as oportunidades abertas para a Petrobras diante da crise no Oriente Médio, classificada por analistas do banco norte-americano Goldman Sachs como um autêntico choque do petróleo – o terceiro dos últimos 50 anos. Diferentemente dos choques anteriores, que apanharam o Brasil na dependência radical dos grandes exportadores, o atual encontra o país autossuficiente em produção de petróleo bruto, do qual é exportador.
Segundo balanço da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) divulgado na quarta-feira (1º), a produção brasileira de petróleo e gás natural bateu recorde em fevereiro, alcançando 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia. "Considerando que todos os outros fatores permaneçam inalterados, os preços do petróleo em alta poderiam aumentar exportações e receitas tributárias [do Brasil], assim como dividendos fluindo para o Tesouro", afirmam economistas em análise divulgada pela consultoria húngara OTP Global Markets.
Busca por autossuficiência em diesel e desafios internos
Na esteira da produção recorde, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a empresa cogita a possibilidade de atingir a autossuficiência em diesel em cinco anos – originalmente, a intenção era suprir 80% da demanda nesse período. "Muito provavelmente, porque a Petrobras adora desafios, quem sabe a gente chega com a possibilidade de ter um novo plano de negócios capaz de entregar a autossuficiência do Brasil em diesel", disse Chambriard.
O anúncio coincide com registros de racionamento ou desabastecimento de diesel no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso, onde o insumo é determinante para o sucesso da colheita da safra de verão. Preocupado com os reflexos da crise, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com indignação a um leilão de gás de cozinha da Petrobras que vendeu o produto com preços até 100% maiores. "Foi feito um leilão, eu diria que uma cretinice, bandidagem que fizeram", declarou Lula, ameaçando anular o processo, mas isentando a direção da Petrobras de responsabilidade.
Trajetória das ações e fatores estruturais
O economista Mahatma Ramos, diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, afirma que o preço das ações da Petrobras tem sido historicamente afetado por situações externas e internas. Desde janeiro de 2023, observa-se um processo de recuperação do valor das ações, que prosseguiu até 2024, quando o preço da ação PETR4 estabilizou-se entre R$ 35 e R$ 42. "Agora, em 2026, [o preço da ação] explode de novo, alcançando quase R$ 50 de valor de face", destaca Ramos.
Para se ter uma ideia do peso da guerra do Irã na alta das ações PETR4, basta analisar o calendário. Em 1º de abril, as ações fecharam a R$ 47,29 – uma valorização de cerca de 20% em aproximadamente um mês. Quando se analisa a cotação do barril de petróleo Brent, as correspondências com as ações da Petrobras são evidentes, com o preço atingindo picos significativos durante o conflito.
Análise de especialistas e perspectivas futuras
Para o professor Maurício Weiss, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o comportamento das ações da estatal pode ser descrito como uma "síntese de fatores conjunturais e estruturais". "Este ano, a Petrobras já subiu mais de 50% [em valor de mercado]. Em março, ela subiu 18%. Isso decorre de fato do conflito no Oriente Médio, com a alta dos preços dos combustíveis", explica Weiss, lembrando que a empresa já vinha apresentando desempenho notável em produtividade e lucratividade antes da guerra.
O economista Cloviomar Cararine, do Dieese, ressalta que a avaliação do valor de uma empresa não é 100% neutra, mas resulta da confluência de análises operacional, política e de mercado. "Uma empresa pode ser muito rentável, ter um futuro muito promissor, mas, por uma série de questões políticas, por exemplo, acabar mal-avaliada", afirma. Cararine também destaca que a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a guerra no Irã servem como lembrete da dependência mundial de combustíveis fósseis, enquanto a China aposta na diversificação energética.
A Petrobras, maior empresa da América Latina em valor de mercado, estimado em mais de US$ 130 bilhões, teve seu perfil incrementado pela exploração do pré-sal, mas também enfrentou escândalos como a Operação Lava-Jato. Sob pressão da alta do petróleo, o governo Lula adotou medidas mitigadoras, como redução de impostos sobre o diesel. O futuro da empresa, avalia Cararine, dependerá de sua capacidade de se converter de uma empresa petrolífera em uma empresa de energia, considerando as tensões geopolíticas e a transição energética global.



